Nilo Dias Repórter

Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A imprensa gaúcha está de luto

A imprensa esportiva gaúcha está de luto, com o falecimento do jornalista Paulo Sant’Ana, de 78 anos de idade, ocorrido por volta de 22 horas de ontem, 19, na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, após sofrer uma parada cardíaca.

Sant’Ana havia sido internado pela manhã, apresentando um quadro de insuficiência respiratória e infecção generalizada. O jornalista estava as voltas com um câncer de rinolaringe, diagnosticado em agosto de 2015, além de ter sido paciente de uma cirurgia de próstata.

Sant'Ana casou-se duas vezes. Com Ieda, teve os filhos Jorge e Fernanda, que lhe deram três netos. Depois, casou-se com Inajara, mãe de Ana Paula.

Paulo Sant’Ana era conhecido por sua paixão pelo Grêmio Portoalegrense. Era um dos poucos profissionais da imprensa do Rio Grande do Sul a assumir publicamente a sua preferência clubistica.

O velório acontece desde as 8h30min desta quinta-feira, 20, na Arena do Grêmio. O sepultamento está marcado para às 17h, no Cemitério João XVIII. O clube,  atendendo solicitação de amigos do colunista, concordou que o velório fosse realizado no salão nobre da Arena gremista.

A direção do Grêmio postou mensagem em sua página na Internet, lamentando a morte de Paulo Sant’Ana, um gremista ilustre. Ele era reconhecido como um dos torcedores mais fervorosos do clube, estando presente em momentos históricos como a conquista do primeiro título da Copa Libertadores da América e da Copa Intercontinental, em 1983.

O E.C. Internacional também registrou a sua homenagem ao torcedor do rival, igualmente em sua página oficial na Internet: “Figura marcante da crônica gaúcha, ele sempre demonstrou respeito ao “Clube do Povo”, alimentando uma rivalidade saudável no futebol do Rio Grande do Sul. Os seus textos e comentários perspicazes, a sua personalidade forte e o humor inteligente farão falta na imprensa. O Internacional se solidariza com a família e os admiradores de Paulo Sant’Ana”.

Francisco Paulo Sant’Ana era natural de Porto Alegre, onde nasceu em 15 de junho de 1939,  na Rua da Margem, hoje João Alfredo. A mãe morre quando ele tinha dois anos. O irmão Cirilo tinha seis meses de vida. O pai casou novamente e tevemais quatro filhos.

Era formado em Direito, na mocidade trabalhou como feirante, ainda  foi inspetor de polícia e vereador pela Aliança Renovadora Nacional (Arena).

Em 1971 é que ele se tornou uma das personalidades mais populares da cidade, quando foi contratado como cronista esportivo da “Rádio Gaúcha” e do jornal “Zero Hora”, onde escrevia crônicas sobre o dia a dia nos anos 90. Era dono de um espaço na penúltima página de “Zero Hora”. Meses depois virou comentarista no recém criado “Jornal do Almoço”, da “TV Gaúcha”, hoje “RBS TV”.

Fumante inveterado fez várias crônicas falando do vício, que acabou se transformando em câncer, que o debilitara bastante, até colaborar decisivamente para a sua morte. Ele sabia do mal que o cigarro provocava, tanto que em uma de suas crônicas o definiu como “um maldito vício em minha vida”.

Eu conheci o Paulo Sant’Ana. Não chegamos a ter uma amizade mais profunda, pois o encontrei poucas vezes, quando morava em Pelotas. Seguidamente ele visitava a cidade, para ver seu amigo Luiz Carlos Peres, irmão do saudoso Glênio Perez, conhecido político gaúcho. Geralmente estava acompanhado do Glênio.

Glênio Peres nasceu em 27 de fevereiro de 1933. Foi um jornalista, ator e político brasileiro. Trabalhou nos já extintos jornais “Diário de Notícias” e “O Estado do Rio Grande” e posteriormente colaborou com “O Pasquim” e a revista “Cadernos do Terceiro Mundo”.

Eleito vereador em Porto Alegre em três legislaturas, pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), foi cassado com base no Ato Institucional Número Cinco em 2 de fevereiro de 1977.

Após a anistia em 1979 foi um dos fundadores do Partido Democrático Brasileiro (PDT), pelo qual conquistou seu quarto mandato de vereador e foi eleito vice-prefeito de Porto Alegre em 1985 na chapa de Alceu Collares.

Faleceu vítima de câncer na capital gaúcha em 27 de fevereiro de 1988, onde, em sua homenagem, foi erigido o “Largo Glênio Peres”. É tio do jornalista Norberto Peres, que escreveu sua biografia.

Glênio foi casado com a socióloga Lícia Margarida Macedo de Aguiar Peres, que morreu em março deste ano, devido um câncer. Ela era baiana de Salvador e veio morar em Porto Alegre em 1964.

Já Luiz Carlos, irmão de Glênio foi excelente goleiro, tendo jogado no Farroupilha, de Pelotas, Internacional, de Porto Alegre, Flamengo, do Rio de Janeiro e Atlético Mineiro.

Depois de encerrar a carreira foi morar em Pelotas, onde abriu o “Bar Rebu”, que ficava na rua 15 de Novembro, ao lado do jornal “Diário Popular”, onde eu trabalhava.

Além de Paulo Sant’Anna , muitos outros intelectuais gaúchos frequentavam o bar. Luiz Carlos foi companheiro da saudosa e famosa cantora mineira, Clara Nunes.

Eu a conheci, também, pois foi ao bar muitas vezes. Lembro que era muito bonita e tratava a todos com respeito e sempre demonstrando alegria. Certa vez eu fui o assador de um churrasco que o Luiz Carlos mandou fazer em homenagem a ela. O Paulo Sant’Anna e o Glenio, estavam presentes.

Eu tinha várias fotos desse memorável encontro, pena que as tenha perdido, em meio as várias mudanças que fiz.

Lembro que Paulo Sant’Anna não se separava nunca do cigarro. E também derrubava generosas doses de uísque. Só vez que outra vi ele beber cerveja.

Tenho uma foto que é verdadeira relíquia, de quando Sant’Anna esteve em São Gabriel, numa das interiorizações do “Jornal do Almoço”. Ao seu lado o saudoso cantor tradicionalista gabrielense, Canário Alegre e a apresentadora Tânia Carvalho. (Texto e pesquisa: Nilo Dias) 



quarta-feira, 12 de julho de 2017

O jogador mais vitorioso do futebol

Ryan Joseph Giggs nasceu em Cardiff, no doa 29 de novembro de 1973. Jogava como meia. Atualmente ocupa a função de auxiliar técnico do Manchester United.

Ao nascer o seu nome era Ryan Joseph Wilson, mas após o divórcio de seus pais, optou por adotar o sobrenome de solteira de sua mãe, ainda no St. David's Hospital em Cardiff, no País de Gales. 

Giggs é de origem multirracial, filho de Danny Wilson, negro com origens em Serra Leoa e ex-jogador do Cardiff, clube de rugby union da cidade, e de Lynne Giggs (agora Lynne Johnson), Ryan cresceu em Ely, bairro do subúrbio de Cardiff. Seu irmão mais novo, Rhodri, treina o Salford City, clube semi-profissional.

Ele morou durante muito tempo com os pais de sua mãe e desde cedo demonstrava interesse por futebol. Em 1980, aos seis anos de idade, seu pai mudou-se de clube, indo jogar rugby league no Swinton, da Grande Manchester, obrigando toda a família a se mudar para a cidade. 

Seu pai inclusive se tornaria o primeiro mulato na Seleção Galesa de Rugby League, na qual atuou cinco vezes, entre 1981 e 1984.

Após mudar-se para Manchester, Giggs atuou por um time amador local, o Deans FC, treinado por Dennis Schofield, que trabalhava também como olheiro para o Manchester City. Em seu primeiro jogo pelo Deans, o time foi derrotado por 9-0 mas, mesmo assim, muitas pessoas comentavam que Giggs havia sido o melhor jogador em campo naquele dia.

Schofield então recomendou Giggs para o City, e ele foi contratado pelo clube.Enquanto isso, continuava jogando por um clube amador, o Salford. Enquanto jogava entre os amadores, Giggs era observado por assistentes de muitos clubes, dentre eles Harold Wood, que trabalhava para o Manchester United.

Wood falou pessoalmente a Alex Ferguson sobre o garoto.[17]Dias depois, Giggs jogou uma partida do Salford contra a equipe Sub-15 do United e marcou um hat-trick, com Ferguson observando da janela de seu escritório.

Em 29 de novembro de 1987, data em que Giggs completava 14 anos, Ferguson foi até a casa da família junto a Joe Brown, olheiro do clube, e ofereceu a Giggs um contrato que lhe possibilitaria profissionalizar-se em três anos, convencendo Ryan e sua família a aceitá-lo. 

Giggs era agora jogador do United, e aos 16 anos, quando sua mãe se casou novamente, ele optou por mudar seu sobrenome. Seus pais haviam se separado há dois anos.

Giggs tornou-se profissional em 29 de novembro de 1990, data do seu aniversário de 17 anos. Já era consderado a maior promessa do futebol inglês desde George Best, também revelado pelo United, na década de 1960.

Giggs fez sua estreia na "Football League" (atual "Premier League") num jogo contra o Everton em Old Trafford, em 2 de março de 1991, substituindo o lesionado zagueiro Denis Irwin, quando o United foi derrotado por 2 X 0 dentro de sua casa.

Em sua primeira partida completa, Giggs marcou também seu primeiro gol, na vitória por 1 X 0 sobre o Manchester City, seu clube nas categorias de base, no Dérbi de Manchester, realizado em 4 de maio de 1991, embora este tenha parecido um gol-contra de Colin Hendry.

No entanto, em sua primeira temporada como profissional, Giggs não teve muitas chances como titular, e as esperanças de título do United acabaram frustradas, com o time terminando apenas na sexta colocação da liga.

Ryan Giggs só pode ter uma denominação: fenômeno. Trata-se do jogador de futebol mais vencedor da história. Sua biografia é simplesmente extraordinária. Se aposentou em 2014, depois de 963 jogos e 168 gols marcados pelo Manchester United.

Somado a isso, mais 63 jogos e 12 gols pela seleção galesa. O jogador abocanhou nada mais, nada menos do que 36 títulos na sua vitoriosa carreira. E não fica só nisso: tem a seu favor o maior número de temporadas disputadas na “Premier League”,22 ao todo e o maior vencedor, com 13 conquistas. 

Também foi o jogador que disputou mais partidas, um total de 632.Foi o único jogador a marcar em todas as temporadas da “Premier League”, até sua aposentadoria.


O jogador será sempre lembrado pela facilidade em dar passes precisos e pela visão de jogo privilegiada, dedicação tática, e muita tranquilidade. E para completar, era dono de um físico invejável.

Foi o único jogador do United a marcar em 15 edições diferentes da "Champions League". Melhor jogador da "Premier League" em 2008 e 2009. 

E para concluir, foi selecionado para a seleção histórica de 10 anos da "Premier League", e para a seleção de 20 anos, sendo considerado o melhor jogador da liga nessas duas décadas de existência.

Ryan Giggs foi um jogador acima da média, dono de  uma técnica fora do comum, sabia driblar nas horas precisas, dono de grande velocidade, partida com  arrancadas desde a defesa até o campo adversário, onde desferia verdadeiras bombas de fora da área.

Nos Jogos Olímpicos de 2012, aos 38 anos de idade, quando defendeu a Seleção da Grã-Bretanha, Giggs estabeleu dois recordes: o jogador mais velho a disputar o torneio olímpico de futebol e o mais velho a marcar um gol nessa competição - contra os Emirados Árabes, em 29 de julho de 2012.


Na estreia das seleções britânicas masculina e feminina de futebol nos Jogos Olímpicos, atletas não-ingleses recusaram-se a cantar o "God Save the Queen" (Deus salve a Rainha, em inglês), o hino nacional britânico. 

Na equipe feminina, Kim Little e Ifeoma Dieke, ambas escocesas, foram as que não cantaram e, na equipe masculina, quem não cantou foram os galeses Ryan Giggs e Craig Bellamy. A atitude dos atletas foi muito criticada por torcedores do Reino Unido.


Giggs casou-se com Stacey Cooke, em uma cerimônia privada em 7 de setembro de 2007. O casal possui dois filhos, ambos nascidos em Salford, na Grande Manchester: Liberty Beau (nascido em 2003) e Zachary Joseph (nascido em 2006).


Giggs também é um representante da UNICEF. Em 2002, lançou uma campanha para a prevenção da morte de crianças em países sub-desenvolvidos. Na época, visitou projetos da entidade na Tailândia.


Títulos conquistados. Manchester United: “Premier League” (1992–1993, 1993–1994, 1995–1996, 1996–1997, 1998–1999, 1999–2000, 2000–2001, 2002–2003, 2006–2007, 2007–2008, 2008–2009, 2010–2011 e 2012–2013); Copa da Inglaterra (1993–1994, 1995–1996, 1998–1999 e 2003–2004); Copa da Liga Inglesa (1991–1992, 2005–2006, 2008–2009 e 2009–2010); Supercopa da Inglaterra (1993, 1994, 1996, 1997, 2003, 2007, 2008, 2010, 2011 e 2013); UEFA Champions League (1998–1999 e 2007–2008); UEFA Super Cup (1991); Copa Intercontinental (1999); Copa do Mundo de Clubes da FIFA (2008).

Prêmios Individuais. Jogador Galês do Ano (1996 e 2006); Hall da Fama do Futebol Inglês (2005); Jogador do Ano pela PFA (2008-2009). Jogador Jovem do Ano pela PFA (1991-1992 e 1992-1993; Equipe do Ano pela PFA (1992-1993, 1997-1998, 2000-2001, 2001-2002, 2006-2007 e 2008-2009; Equipe da Década da PFA (1997 a 2007); Equipe da Década da Premier League (1992-1993 a 2001-2002);Equipe da Década da UEFA Champions League (1992 a 2002); BBC Sports Personality of the Year (2009]; BBC Sports Personality of the Year no País de Gales (1996 e 2009); Troféu Bravo (1993); Prêmio Sir Matt Busby (1997-1998); Prêmio Golden Foot (2011); Jogador Jovem do Ano do Manchester United (1990-1991 e 1991-1992); Jogador do Mês na Premier League (Setembro de 1993, Agosto de 2006 e Fevereiro de 2007); Gol Mais Bonito da Premier League (1998-1999); MVP da Copa Intercontinental (1999); Ordens e Honras. Ordem do Império Britânico (2007) e Cidadania Honorária de Salford, Grande Manchester (2010).


Apesar de uma carreira recheada de títulos e recordes pelo Manchester United, na Seleção Galesa, entretanto, Giggs não pôde obter tantas conquistas. Em 16 anos de Seleção Galesa, Giggs atuou em 63 partidas e marcou 12 gols, mas nunca disputou uma Copa do Mundo, Eurocopa ou outro torneio de expressão.

Fez sua estreia pela seleção em 1991, quebrando o recorde de mais jovem jogador a atuar pelo País de Gales, marca que foi sua durante cerca de sete anos, quando foi quebrada por Ryan Green, em junho de 1998.

Em 2004, foi nomeado o capitão da equipe. Em 5 de setembro de 2006, jogou um amistoso contra a Seleção Brasileira, realizado no estádio de White Hart Lane.


Giggs anunciou sua aposentadoria da seleção nacional em 30 de maio de 2007, numa coletiva de imprensa. Seu último jogo pelo País de Gales aconteceu dias depois, durante as eliminatórias da Euro 2008, contra a República Tcheca, em 2 de junho.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

O narrador da gaitinha de boca

Ary Evangelista Barroso era mineiro de Ubá, nascido no dia 7 de setembro de 1903. Seus pais morreram em 1911 e ele passou a ser criado pela avó, Gabriela Augusta de Rezende, e pela tia professora de piano, Rita Margarida de Rezende. Em 1920, com a idade de 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Advogado por formação, Ary Barroso possuía muitos talentos e praticava todos eles, era radialista, escritor, humorista, repórter, produtor, pianista, mestre de cerimônias, apresentador de TV, entrevistador, narrador e comentarista de futebol e político.

As pessoas mais novas talvez nunca tenham ouvido falar nele, o homem que compôs a música “Aquarela do Brasil”, considerada quase um segundo Hino Nacional. A sua carreira profissional foi brilhante, e seu programa de calouros no auditório da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro arrastava grades legiões de ouvintes país afora.

Ficou famosa a cena proporcionada por um calouro, que ao ser perguntado por Ary, qual a música que cantaria, respondeu que um sambinha, “Aquarela do Brasil”. E Ary, indignado expulsou o calouro dizendo que “você pode cantar o sambinha que bem entender, mas o meu samba você não canta mais”.

Além de ser um compositor emérito, autor de outros sucessos como “Tabuleiro da baiana”, “No rancho fundo”, “Na baixa do sapateiro” e muitas outras, também foi um destacado narrador esportivo, embora nada imparcial, em razão da sua paixão pelo Flamengo.

Seu estilo inovador de narrar se tornou famoso. Era o torcedor contando jogos de sua equipe. E a ideia de usar uma gaitinha de boca, a cada gol narrado, se tornou sucesso inquestionável.

Na juventude tentou ser jogador de futebol, lá em Ubá, Minas Gerais e depois no Rio de Janeiro. Mas não deu certo. Sua vocação era outra. Por isso acabou entrando para o rádio, como locutor esportivo, primeiro, e depois compositor musical.

Começou a carreira de narrador num Fla–Flu, jogo de significado especial para ele: poucos sabem, mas Ary fora torcedor do Fluminense até o dia em que foi barrado na porta do clube, e ficou chateado com a diretoria.

Ary chegou ao Flamengo em 1926, levado pelas mãos de José de Almeida Neto, o zagueiro “Telefone”. E desde então integrou-se à vida social, política e desportiva do clube. A partir daí foram 33 anos de dedicação incondicional ao Flamengo.

A primeira narração de Ary, com a gaitinha famosa, que substituía o grito de gol, aconteceu na transmissão do jogo entre Vasco e São Cristóvão, em que os vascaínos venceram por 7 X 1. Foram, portanto, oito apitos da gaita.

O sucesso causou frenesi e aumentou com a escandalosa parcialidade do locutor: gols do Flamengo eram comemorados com sopros muito mais longos do que os das outras equipes. Já os gols sofridos pelo seu time rubro negro, eram assinalados com dois apitos curtos, se muito.

E tinha uma razão de ser. Naquele tempo não existiam cabines de rádio nos estádios. A narração era feita no meio da torcida. E quando do gol quase não se ouvia a voz do narrador. E o som da gaita refletia bem o momento maior de um jogo de futebol.

O estilo inovador de Ary teve reflexos positivos na venda de anúncios publicitários. Graças a isso ele conheceu o publicitário Antônio D’Ávila, também conhecido por “Zuzu”, um jovem pernambucano, encarregado de vender os anúncios para suas transmissões.

E passou a vender como água. Os preços eram relativamente “salgados”, custando entre 5 e 10 mil réis por jogo, mas ainda assim ninguém reclamava e pagava com um sorriso no rosto. A propaganda era distribuída em três ou cinco textos, em média, com trinta palavras.

A cada transmissão de futebol uma infinidade de anunciantes, que iam desde fabricantes de calçados e móveis, até para o óleo perfumado “Pindorama”, que dizia “de cabeça em cabeça, corre a fama do óleo perfumado Pindorama”.

Diversas aventuras marcaram a vida de Ary como locutor esportivo. Violentamente criticada pelo locutor, a diretoria do Vasco da Gama, certa vez, proibiu sua entrada no Estádio de São Januário, onde se travaria importante jogo entre Vasco e Fluminense. Como não se dava por vencido facilmente, transmitiu o jogo de um telhado das vizinhanças, auxiliado por binóculos.

Episório idêntico aconteceu na cidade de Pelotas (RS), quando o presidente do Grêmio Atlético Farroupilha, probiu a entrada de integrantes da Rádio Pelotense, no estádio do clube. A solução foi a construção de uma torre de madeira no lado de fora do estádio.

Não demorou para que a poderoso Rádio Tupi, do empresário Assis Chateaubriand contratasse a dupla Ary e “Zuzu”, em 1937. E Ary ficou por 15 anos na emissora, enquanto seu parceiro, “Zulu”, ingressou na política e anos mis tarde chegou a ser assessor especial do presidente Jânio Quadros, criando o jingle histórico: “Varre, varre, vassourinha...”.

Chateaubriand pensava longe. A contratação de Ary Barroso visava fortalecer a sua emissora, para poder enfrentar a nova concorrência surgida em 1936, quando entrou no ar a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro.

Na Tupi continuou a narrar futebol da mesma forma apaixonada de sempre. O torcedor adorava ouvir suas narrações, em especial os do Flamengo. Um lance por ele narrado, que se tornou famoso: “Ih, lá vem os inimigos. Eu não quero nem olhar". 

Quando das disputas do Campeonato Sul-Americano de 1937, com os nervos à flor da pele, Ary Barroso chegou a desmaiar durante a transmissão.

A paixão pelo Flamengo fez com que não aceitasse um convite para trabalhar na Walt Disney, nos Estados Unidos, porque lá “não existia um Flamengo”.  

E também era torcedor da Seleção Brasileira. Contam que em 1940, quando do Campeonato Sul-Americano, a Rádio Mayrink Veiga , do Rio de Janeiro detinha exclusividade para transmitir a competição. A época era de uma concorrência enorme entre as emissoras de rádio, especialmente nas transmissões de futebol.

E o que fez Ary Barroso, para conseguir transmitir o certame continental? Embarcou num avião e foi parar na Argentina, de onde, confortavelmente instalado no apartamento de amigos, sintonizou uma rádio local que retransmitia o jogo narrado por Oduvaldo Cozzi, dublou o colega e fez chegar sua narração à Rádio Tupi.


Tem ainda mais uma história bem engraçada, envolvendo uma aposta feita pelo flameguista Ary e outro compositor, o fluminense Haroldo Barbosa. Como conta o escritor Ruy Castro: 

"Em 1953 ou 1954, os dois apostaram o bigode num Fla-Flu. Quem perdesse teria o bigode raspado pelo outro, com imprensa e tudo. Haroldo ganhou, e a história, anos depois, acabou num samba: "Flamengo já parou de perder por aí /Eu vi o Haroldo Barbosa raspar o bigode do Ary./ Às vezes, com dez homens ele vence/ Mas, também com onze, perdeu para o Fluminense".

Pelo Flamengo ele fazia qualquer coisa. Em 1943 foi um dos responsáveis pela contratação do jogador paraguaio, Modesto Briac. Para concretizar a negociação, ele conseguiu emprestado o avião particular do chefe, Chateobriand, para buscar o jogador.

Ary tinha também companheiros inseparáveis nas transmissões esportivas. Isaac Zinkenmann, repórter de sua equipe na Tupi, utilizava um aparelho semelhante a um ferro de passar roupa, com gancho de telefone acoplado.

Ari, com seu “flamenguismo” declarado, chamou a participação do jovem repórter e disse: “Alô Isaac!”. O repórter, todo enrolado com a nova engenhoca, respondeu: “Quem fala?”.  Ari ficou furioso com a resposta e devolveu:

“Como, quem fala. Quem poderia ser Isaac?”. O locutor não perdoou o vacilo do repórter e emendou: “É o Ary, aliás, deixe esse microfone de lado, que você não tem jeito para a coisa. Está despedido”.

Mais uma das eternas brincadeiras de Ary, que não mandou Isaac embora, até porque era um grande amigo do repórter. Tudo fazia parte do “show”.

A última narração de futebol feita por Ary Barroso foi durante a Copa do Mundo de 1950, realizada no Brasil. A tragédia de nossa equipe foi tão decepcionante, que Ary Barroso e seu amigo e companheiro de transmissão, Antônio Maria, decidiram abandonar o rádio esportivo definitivamente.

O nosso herói não limitou suas transmissões esportivas apenas ao futebol. Muitas vezes também narrou corridas de cavalos e de automóveis. E paralelamente escrevia crônicas que eram publicadas no “O Jornal”. E até pensou em fazer um livro, que teria o título de "O Livro Negro do Futebol Brasileiro". Não existem registros que confirmem a publicação.

Ary Barroso morreu no dia 9 de fevereiro de 1964, em um domingo de carnaval, após lutar três anos contra a cirrose.  Quatro anos antes fora nomeado vice-presidente do departamento cultural e recreativo do Flamengo.


Ary Barroso trasmitiu um jogo do Vasco desde o telhado de uma casa vizinha ao Estádio São Januário. (Foto: Blog Literatura na Arquibncada)

sábado, 24 de junho de 2017

O incrivel "Jogo da Neve"

É claro que os três Estados do Sul são tradicionalmente os mais frios do Brasil. Eu sou gaúcho, filho de Dom Pedrito e morei também em Rosário do Sul, Pelotas, Rio Grande e São Gabriel Dizer qual dessas cidades é a mais fria, eu não saberia. Acho que se equivalem.

Sei que São Joaquim, em Santa Catarina e São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul são locais que não me serviriam para morar. Fui criado pisando em geada nas manhãs geladas de minha terra natal. Dormindo com cobertor, acolchoado e bolsa de água quente nos pés.

Sei que em São José dos Ausentes a noite chega às 6 da tarde. E se ouve um ronco vindo do cânion existente por lá. Mais ninguém anda nas ruas. Nem um boteco aberto para a gente tomar uma. Que horror.

Hoje moro em Brasília, onde praticamente não existe inverno. Pelo menos para quem veio do Sul do país. Eu estou aposentado, deixei para trás o terno, a gravata e o sapato social. Hoje ando sempre de chinelo ou sandália, bermuda e camisa regata. As vezes visto o manto sagrado do Internacional.

Faço essas observações para que o leitor de outras regiões do Brasil sinta, não na pele, mas no entendimento, que muitas vezes o inverno por lá é tão rigoroso, que fica dificil de acreditar em algumas situações surgidas. E o que vou contar agora é real.

Foi na noite de 30 de maio de 1979, que tudo aconteceu. Jogo válido pelo Campeonato Gaúcho, segundo turno, entre Grêmio Portoalegrense e Esportivo,, de Bento Gonçalves. Nesta história nem vale a pena dizer como estavam os times na taela.

O jogo foi em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, no antigo Estádio da Montanha. Hoje o Esportivo está em outro endereço, o Estádio dos Vinhedos. Havia no ar uma intensa massa de ar polar, cenário ideal para neve. A previsão do tempo anunciava tudo isso.

E a neve caiu, como era esperada. Ninguém foi pego de surpresa. Ás 20h30min a temperatura já estava próxima de zero grau. O jogo estava marcado para às 21 horas. Os dois times entraram em campo, com os atletas batendo queixo, com toda a certeza.

O técnico do Esportivo era Valdir Espinoza. O time: Jânio - Toninho - Carlão e José; Raquete; Tovar - Celso Freitas e Adílson. João Carlos - Néia e Rubem. O Grêmio, de Orlando Fantoni, tinha Manga - Vilson - Vantuir e Vicente. Dirceu - Vitor Hugo - Paulo César Caju e Jurandir. Tarciso - Baltazar e Jésum.

Faço idéia de como se sentiam jogadores como Paulo César Caju, carioca, que estava com a cabeleira coberta de neve. E Manga, pernambucano. Os dois acostumados com o calor e praias. A neve começava a tomar conta do gramado. O grosso bigode do mineiro Jesum, estava branco de neve. Os jogadores corriam mais em campo para espantar o frio.

Nas arquibancadas 3.988 valentes torcedores e renda de CR$ 189.520,00.
De um gol a outro era simplesmente impossível enxergar alguma coisa. No intervalo do jogo, com 0 X 0 no placar, os gelados flocos de neve não paravam de cair.

O juiz do jogo era Carlos Martins, que até pensou em cancelar a partida antes de começar o segundo tempo. Mas não o fez. Com o gramado escorrefgadio pela neve, o jogo terminou sem vencedor, empate em 0 X 0.

Esse jogo não foi único no Brasil, disputado em situação tão calamitosa. Antes, em 17 de julho de 1975, o jogo entre Juventude e Internacional, de Santa Maria, no Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, vencido pelo time local por 2 X 0, constitui-se até hoje na única vitória de um time na neve, com registro e testemunho na história do futebol brasileiro.


Em 1979, tivemos mais dois registros importante. Em 31 de Maio, nevou no jogo entre Chapecoense X Criciúma. Era um frio de rachar, com temperatura negativa e 177 heroicos torcedores presentes. 

Em 30 de junho no jogo entre Internacional, de Lages e Avai, no Estádio Vidal Ramos Júnior em Lages, empate em 1 X 1, também nevou forte e o jogo se desenvolveu com o gramadio tomado de neve.

Os times naquela ocasião tinham essa formações. Internacional: Luiz Fernando - Chicão - Nivaldo - Eduardo e Clademir. Bin - Daniel e Vanusa. Jorge Guilherme - Wilson (Jones) e Vacaria. Técnico: Ademir Martin.

Avaí: Zé Carlos - Deide - Beto - Adaírton e Rosa Lopes. Lourival - Katinha e Linha. Valter - Jorge Luiz e Zé Paulo (Nilson). Técnico: Luiz Alberto. Gols: Jorge Luiz (Avaí) e Jones (Inter).

Lance do "Jogo da Neve", entre Esportivo X Grêmio, em Bento Gonçalves.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Um time chamado Everest

O Sport Club Everest foi uma agremiação esportiva da cidade do Rio de Janeiro, fundado a 2 de agosto de 1915. O clube não tem relação alguma com o atual Everest Atlético Clube, fundado em 1953, apesar de ambos serem do mesmo bairro. Possivelmente, o atual foi inspirado no anterior.

A sede do áureo-anil ficava no bairro da Tijuca. Sete anos depois se mudou para o Estácio de Sá, onde ficou apenas um ano. Depois, entre 1923 a 1930, Nova mudança: dessa vez para o Bairro de Inhaúma, no Subúrbio carioca. E finalmente, de 1931 a 1933, o clube residiu no Méier.

Em 1917, disputou o Campeonato Carioca da Terceira Divisão ficando na quinta colocação. Americano, Mackenzie e Rio de Janeiro foram promovidos para a 2ª divisão. No ano seguinte ficou em quarto lugar no mesmo campeonato. O Esperança foi promovido. Em 1919, declinou de sua participação juntamente com o Tijuca. O Helênico foi o campeão.

Em 1920, o Everest desistiu de disputar o certame, entregando os pontos pela quinta vez. Ficou proibido de disputar o restante do campeonato, de acordo com o artigo 34, do Código de Football. Sua participação foi, portanto, anulada. O Metropolitano foi o campeão ao vencer o Bonsucesso na decisão.

Em 1923, promoveu uma fusão com o Inhaumense Football Club, o antigo São Thiago Football Club, fundado a 5 de maio de 1915.

Na elite do Rio, a sua única participação aconteceu em 1924. Então, em Inhaúma, o S.C. Everest participou da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), que teve o Club de Regatas Vasco da Gama como campeão e o Bonsucesso Futebol Clube, sua melhor colocação no Estadual, ficou com o vice-campeonato.

A campanha do SC Everest foi boa. O time ficou na terceira colocação da Série C, com 17 pontos, atrás do Engenho de Dentro Atlético Clube (22 pontos) e Modesto FC (17 pontos e saldo de 19 gols). Ao todo foram 12 jogos com sete vitórias, três empates e duas derrotas; marcando 21 gols e sofrendo 13, com saldo de oito. Tinha as cores azul e amarela.

Os 12 Jogos

22-05-1924 - Em Inhaúma: Everest 5 X 0 Ramos
25-05-1924 - Em Inhaúma: Everest 2 X 1 Independência
15-06-1924 - Em Quintino: Modesto 2 X 3 Everest
13-07-1924 - Em Inhaúma: Everest 2 X 2 Engenho de Dentro
20-07-1924 - Rua Cândido Silva, em Olaria: Olaria 0 X 0 Everest
27-07-1924 - Em Campo Grande: Campo Grande 1 X 2 Everest
10-08-1924 - No Méyer - Independência 2 X 2 Everest
14-09-1924 - Na Rua Jockey Club, em Ramos Ramos 0 X 2 Everest
05-10-1924 - No Engenho de Dentro: Engenho de Dentro 2 x 1 Everest
09-10-1924 - Em Inhaúma: Everest W X - Olaria
12-10-1924 - Em Inhaúma: Everest 2 X 1 Campo Grande
26-10-1924 - Em Inhaúma: Everest 0 X 2 Modesto

Títulos. Campeão Carioca de 2° quadros da Segunda Divisão (1928) e Vice-Campeão Carioca da Segunda Divisão (1926). 


Curiosamente, existe em Guayaquil, Equador, um clube de futebol de nome Club Deportivo Everest, anteriormente chamado de Círculo Deportivo Everest. Foi fundado em 2 de fevereiro de 1931. Ganhou o título de campeão da Série A equatoriana, em 1962, e garantindo vaga na Copa Libertadores da América, em 1963.

Foi nessa equipe que surgiu o jogador Alberto Spencer, o maior jogador do Equador de todos os tempos, comparado a Pelé, por alguns jornalistas. Ele chegou a marcar 101 gols oficiais pelo Everest até 1960, ano em que foi para o Peñarol. 

No clube uruguaio marcou 326 vezes. E pelo Barcelona, de Guayaquil, 19 vezes. Fez 4 gols pela Seleção do Equador e 2 pela Seleção Uruguaia, totalizando, totalizando 452 gols na carreira.

Atualmente o Everest joga a Segunda Divisão de seu país. O nome é uma homenagem a montanha mais alta do mundo, que está localizada na Cordilheira do Himalaia.


Curiosamente, existe em Guayaquil, Equador, um clube de futebol de nome Club Deportivo Everest, anteriormente chamado de Círculo Deportivo Everest. Foi fundado em 2 de fevereiro de 1931. Ganhou o título de campeão da Série A equatoriana, em 1962, e garantindo vaga na Copa Libertadores da América, em 1963.

Foi nessa equipe que surgiu o jogador Alberto Spencer, o maior jogador do Equador de todos os tempos, comparado a Pelé, por alguns jornalistas. Ele chegou a marcar 101 gols oficiais pelo Everest até 1960, ano em que foi para o Peñarol. No clube uruguaio marcou 326 vezes. E pelo Barcelona, de Guayaquil, 19 vezes. Fez 4 gols pela Seleção do Equador e 2 pela Seleção Uruguaia, totalizando, totalizando 452 gols na carreira.

Atualmente o Everest joga a Segunda Divisão de seu país. O nome é uma homenagem a montanha mais alta do mundo, que está localizada na Cordilheira do Himalaia. (Pesquisa: Nilo Dias)

O Everest equatoriano, em foto de 1962. (Foto: Divulgação)

Escudo do Everest carioca (Fonte: Wikipédia)

terça-feira, 25 de abril de 2017

O pai esquecido do futebol brasileiro

Quem garante que o futebol cresceu e se consolidou no país graças a técnica e a eficácia dos próprios jogadores brasileiros? Pelo menos essa não é a convicção de um canal de televisão na Escócia, que apresentou um documentário mostrando que o futebolista escocês Archie McLean foi o verdadeiro responsável pelo estilo criativo dos brasileiros de jogar futebol.

Ele foi chamado no documentário, que também foi reprisado pelo canal “Stv or”, de Brasília, de "o pai esquecido do futebol brasileiro". Começou a jogar como atleta amador em seu país ao início do século 19, quando defendeu as equipes do Johnstone e do Ayr United. A carreira durou pouco, visto que paralelamente trabalhava em uma empresa têxtil de Paisley, e foi transferido em 1912 para São Paulo, no Brasil.

Em principio Archie deveria ficar no Brasil por um período de apenas três meses, mas acabou ficando por 40 anos. Por aqui desenvolveu uma exitosa carreira futebolística, atuando por vários clubes e chegando até a jogar ao lado do lendário Arthur Friedenreich.

O pouco que se sabe a respeito do escocês foi contado por seu neto, Malcolm McLean, que narrou o documentário apresentado sobre seu avô na TV escocesa. E ele próprio admite que o título é um tanto exagerado, e visava somente chamar a atenção dos desportistas da Escócia.

Mas nem por isso deixa de acreditar que o seu avô teve realmente uma grande influência no desenvolvimento do futebol no Brasil. Na época em que Archie chegou ao nosso país, prevaleciam os lançamentos longos no futebol. E foi ele quem introduziu a tabelinha, um estilo de jogo curto e rápido, que é definido pelo neto como estilo escocês.

Segundo ele, Archie era um jogador ágil e rápido, não ficava parado e não tinha medo de trombar com os adversários. Seu estilo veloz e a naturalidade escocesa lhe renderam um apelido nada agradável, “veadinho”. Isso porque na Escócia existem muitos veados correndo nas montanhas.

Malcolm McLean, que cresceu em terras brasileiras, acredita que o apelido não tinha nada de pejorativo e se devia mais ao bom humor dos torcedores brasileiros. Ele mora em Glasgow, na Escócia e vem ao Brasil a cada dois anos.

Foi ai que Archie criou com outros amigos escoceses o “Scottish Wanderers”, da fábrica em que trabalhava e ficava próxima ao bairro em que residia, o Ipiranga. Antes havia jogado apenas uma partida pelo São Paulo Athletic Club, que parou com o futebol por não concordar com o amadorismo marrom praticado.

O clube disputou os campeonatos paulistas de 1914 e 1915, classificando nas duas vezes em penúltimo lugar. E foi expulso da Federação porque usava o dinheiro das rendas para pagar jogadores do Colégio Mackenzie. Em razão do fechamento do clube, transferiu-se em seguida para o Sport Club Americano, onde conheceu o auge da carreira, tendo participado de um jogo de seu time, que representou o Brasil, contra a Argentina, em 1913.

Naqueles tempos distantes, não era fácil montar uma seleção em um país tão grande como o Brasil. Se considerarmos que o Americano foi na ocasião equivalente ao time nacional, pode-se garantir que Archie foi o único estrangeiro a jogar pela Seleção Brasileira até hoje, diz o neto do jogador. Por fim jogou no São Bento, onde concluiu a carreira futebolística.

McLean nasceu em 1886 e se dedicou aos esportes ao longo de toda a sua vida. Ele nunca quis ser treinador. Quando parou de jogar na linha, virou goleiro. E quando morreu, em 1971, de câncer, ele ainda estava bem em forma, pois sempre jogava golfe.

Além do documentário já exibido, outro foi levado ao ar em 2007, que teve a narração do ator Sean Connery. E também foi escrito um livro contando a vida de Archie.

O neto do escocês que "inventou" a tabelinha no futebol brasileiro, disse que o documentário teve grande aceitação pelo público escocês, por uma questão de ligação afetiva. Ele garante que na Escócia, todo mundo torceu pelo Brasil na Copa do Mundo de 2014. (Pesquisa: Nilo Dias)


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Um contador de histórias

Valdemar Cavalcanti, ou simplesmente “Demazinho”, como é mais conhecido, faz parte do folclore esportivo de Petrolina, cidade do sertão pernambucano, onde mora desde 1957. Ele é baiano de Campo Formoso, distante 340 quilômetros de Salvador, onde nasceu em 3 de agosto de 1947.

Em terras pernambucanas ganhou o apelido de “Demazinho”, o que se explica em razão de sua baixa estatura. Chegou a tentar a carreira de jogador de futebol, mas não era a sua praia, por isso desistiu e resolveu enveredar por outros caminhos.

E foi por acaso que se tornou árbitro de futebol. Ele, que na época trabalhava como serralheiro, assistia a um treino do time local do Caiano Esporte Clube, quando o treinador Geraldo Melo o convidou para pegar o apito e dirigir o coletivo. E se deu bem na missão, sendo elogiado pelos dirigentes, jogadores e torcedores do clube.

Ele nem de longe imaginava que ali estava começando uma carreira, que teria a duração de 18 anos. O primeiro jogo que apitou foi em 1 de maio de 1966, no estádio da Associação Rural. Vale acrescentar que em toda sua carreira só apitou jogos de clubes amadores, nunca sendo árbitro em jogos profissionais, apenas bandeirinha.

Mas quando jogavam Caiano, América e Palmeiras, todos amadores, aí a coisa era com ele mesmo.

Nesses 18 anos apitando, e mais de 40 envolvido no futebol de Petrolina, “Demazinho” viu muita coisa e guardou na memória. Ele gosta de contar esses fatos aos amigos que diariamente o procuram em um banco de praça na cidade pernambucana.

E está sempre de bom humor. Até hoje frequenta o Estádio da Associação Rural, que agora tem nome, chama-se “Paulo de Souza Coelho”. Desde a fundação da praça esportiva, em 1961, que ele é visto sentado em uma das arquibancadas.

Por lá viu grandes jogos e observou verdadeiros craques em campo. Ouviu e contou histórias, algumas hilariantes, outras nem tanto, que até agora ainda são lembradas por ele. E garante que nos campos amadores de Petrolina passaram atletas que marcaram época no futebol local e com certeza poderiam jogar em qualquer time profissional.

Alguns eram melhores que certos renomados atletas da Seleção Brasileira. Ele cita o jogador Sinésio, que na sua visão era melhor que Zico. Com certeza, se tivesse tido oportunidade jogaria em qualquer seleção do mundo, não só do Brasil.

Por Petrolina passaram grandes clubes profissionais do futebol brasileiro, que por lá jogaram amistosos, e ele assistiu a todos. Casos de Botafogo, Atlético Mineiro, Bahia, os três times de Recife (Náutico, Sport e Santa Cruz).

Confessa que só não assistiu a jogos do Flamengo, do Rio de Janeiro, por que não gosta desse time. Tem verdadeira ojeriza pelas cores vermelha e preta. Isso se explica porque “Demazinho” é torcedor do Botafogo carioca.

Já em Petrolina ele diz que não torce por nenhuma equipe em especial, herança trazida desde os tempos em que era árbitro. Gostava de primar pela imparcialidade. E afirma que o seu coração tem espaço para todos os times da cidade.

Garante que quase sempre se deu bem nos jogos que apitou. As torcidas e os jogadores o respeitavam muito. Mas uma vez foi obrigado a chamar o policiamento para fazer cumprir a lei do jogo.

Ele expulsou de campo um jogador, e este, inconformado, disse que ia lhe dar uma surra. Nada mais restou ao árbitro que correr para o meio dos dois soldados que faziam a segurança do jogo. Mostrou o cartão vermelho e disse a ele:

“Dê agora. Venha bater em mim”, conta dando gostosas gargalhadas. O tempo passou célere e hoje “Demazinho” e o atleta que foi expulso são grandes amigos.

O jogo que lembra com entusiasmo aconteceu entre Caiano e Palmeiras, num sábado a tarde, que valia o título de campeão da cidade. Estava chovendo.

O Palmeiras fez 1 X 0 e as torcedoras “Maria Lampião” e “Socorro de Zé Bruno” foram lavar a sede do time para fazer a festa depois do jogo. Surpresa. Quando voltaram ao estádio, o Caiando estava ganhando por 7 X 1 e a festa foi para o espaço.

Outra história interessante é a do juiz que não sabia ver o tempo de jogo no relógio. Naquela época era costume riscar o relógio com um lápis, mostrando onde começava e onde terminava o tempo regulamentar. O fato aconteceu em 1977.

E teve um dia que choveu e apagou o risco. O problema, é que o juiz da partida não sabia ver a hora.  O jogo já estava em 50 minutos e ele sem parar. O jeito foi alguém entrar em capo para encerrar o primeiro tempo.

Além do problema com o relógio, o juiz do jogo passou por outra situação inusitada na mesma partida, como conta “Demazinho”.

Essa história foi publicada até por jornais dos Estados Unidos. No intervalo do jogo, ele teve uma dor de barriga terrível e ficou atrás do mato. E nada do jogo recomeçar. Aí ficou todo mundo procurando o juiz, que foi encontrado tempos depois levantando o calção. O árbitro trapalhão, cujo nome “Demazinho” não revelou, hoje vive em Recife.

Nem os narradores de futebol de Petrolina escapam da língua ferina de “Demazinho”. Ele conta muitas histórias vividas pelo locutor Herbert Mouze, que costumava dizer: “Rádio Juazeiro, a melhor do Atlântico”.

E a pergunta vinha rápida: “Onde é que Juazeiro tem Atlântico, aqui é o rio São Francisco”. E tinha também o repórter Antônio Avelar. Certa vez a torcida gritava “Vai na bola, Avelar”. Ele jogou o microfone no chão e saiu correndo atrás da bola.

Muito boa a historinha que envolve um torcedor do Palmeiras, chamado de “Luiz tá em todas”.  Quando o adversário de seu time fazia gol, ele passava para o outro lado da arquibancada para tomar umas e outras. Por isso o curioso apelido.

“Demazinho” não casou e não tem filhos, mora com uma irmã. Aposentado, garante ser um homem livre, que quase aos 70 anos viaja para onde quer e quando quer. Sua segunda casa é o estádio Paulo de Souza Coelho, local onde passa a maior parte de seu tempo.

Ele se mostra preocupado com o futuro do futebol amador de Petrolina, que não vive um bom momento. E apela às autoridades para que ajudem o esporte a voltar aos bons tempos da Associação Rural. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 4 de abril de 2017

O "Deus" búlgaro do futebol

Hristo Stoichkov foi, sem a menor dúvida, o grande nome do futebol búlgaro em todos os tempos. Falastrão, polêmico e brincalhão, o craque encantou a Europa no final dos anos 80 vestindo a camisa do CSKA Sofia e depois partiu para o estrelato com o azul e grená do Barcelona, campeão de quase tudo nos anos 90.

Seu auge aconteceu em 1994, quando não só brilhou intensamente pelo time catalão como também fez da Copa do Mundo dos EUA um palco para o seu debute e consagração mundial. Quem viu jamais se esqueceu das apresentações de gala daquele baixinho rápido, habilidoso e fora de série, que deixava companheiros na cara do gol ou partia ele mesmo enfileirando zagueiros e assinando obras primas maravilhosas.

Stoichkov marcou seis gols que levaram a Bulgária a uma incrível semifinal, perdida por pouco para a Itália de Roberto Baggio. Depois do mundial, o craque foi perdendo a intensidade aos poucos, mas não o poder de decisão, marcando gols importantes em finais pelos outros clubes que defendeu até encerrar a carreira

Nasceu em 8 de fevereiro de 1966, em Plovdiv, a segunda cidade do país em população total, com 378.107. Está situada às margens do rio Maritsa, sendo a cidade um importante centro econômico, de transportes, cultural e educacional. Altura de 1,78 cm e peso de 85 quilos.

Atacante, começou a carreira em 1981 na equipe do Maritsa Plovdiv, da segunda divisão búlgara. Depois jogou no Hebros, também da Bulgária. Sabendo dos problemas de temperamento do Stoichkov, seu pai, que trabalhava no Ministério da Defesa da Bulgária, colocou-o no CSKA Sófia. A esperança era de que ali, no time do Exército, o garoto conseguiria se controlar e amadurecer. Stoichkov tinha a pecha de craque-problema.

Com ainda 19 anos, sua carreira ficou seriamente ameaçada. Na primeira vez que disputou um título, a Copa da Bulgária de 1985, fez o gol da vitória na final contra o arquirrival Levski Sófia. No entanto, em uma partida cheia de lances violentos dos dois times, o jogo terminou com uma briga generalizada. Stoichkov saiu a socos com o goleiro adversário, Borislav Mihaylov.

As imagens do jogo foram tão contundentes na opinião pública búlgara que o próprio Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro se reuniu no dia seguinte e decretou o banimento de vários jogadores, dentre eles o jovem Stoichkov. O órgão também determinou que aquela Copa da Bulgária ficaria sem campeão e que os dois times seriam extintos. O Levski virou "Sredets" e o CSKA, "Vitosha".

Uma anistia foi dada aos jogadores um ano depois. Stoichkov voltou a jogar a partir da temporada 1986/87 e conduziu o Vitosha ao título no campeonato búlgaro e na Copa da Bulgária.

Novas conquistas dobradas vieram em 1989. A Copa também foi conquistada em 1988. Naquele ano, a punição aos clubes também foi atenuada e eles retomaram os antigos nomes e o CSKA, o título da Copa de 1985.

Stoichkov deu-se bastante bem: além dos títulos, ele foi eleito o melhor jogador do país em 1987, 1988 e 1989. Em 1990, ganhou novamente o campeonato búlgaro, do qual sua artilharia foi a maior do continente.

Com isso, recebeu a chuteira de ouro europeia, premiação dividida com o mexicano Hugo Sánchez, da equipe espanhola do Real Madrid. O feito faria Stoichkov desembarcar justamente na Espanha, no arquirrival Barcelona, por indicação de Johan Cruyff, então técnico do time catalão.

Não demorou para que seus lançamentos precisos e a perna esquerda fizessem história no clube catalão. Na primeira temporada no Barça, o time quebrou a série de cinco títulos seguidos do Real na liga espanhola, embora o reforço tenha ficado dois meses fora em nova confusão: em seu primeiro clássico contra o Real Madrid, pisou no juiz e foi suspenso, inicialmente por seis meses. Contra outro time madrilenho, o Rayo Vallecano, chegou a ser expulso após receber dois cartões amarelos em seis minutos.

Stoichkov era adorado por seus compatriotas que diziam haver um Cristo lá em cima e outro aqui embaixo. Ambos fazem milagres, em alusão ao seu nome Hristo, a versão búlgara para Cristo. Outros diziam que a versão correta era “Existem apenas dois Cristos. Um joga no Barcelona, o outro está no paraíso".

Tratava-se de um meia de estilo técnico, dono de uma perna esquerda capaz de entortar qualquer zagueiro, fazer lançamentos e finalizar com extrema e rara precisão. Na Copa de 94 foi artilheiro, ao lado do russo Salenko, com seis gols e ganhou o prêmio de melhor jogador da Europa nesse ano, concedido pela revista "France Football".

Apesar de ser um verdadeiro craque, Stoichkov não era aquilo que se poderia chamar de “flor que se cheire”. Não teve a carreira marcada somente pelos inúmeros títulos que colecionou ou pelos muitos gols que marcou, como aquele que desclassificou a Alemanha na Copa de 94.

Costumeiramente criava confusões dentro e fora dos gramados, tendo colecionado encrencas. Pegou três suspensões superiores a um mês e se transformou num dos jogadores que mais receberam cartões amarelos por reclamação na história do futebol espanhol.

Logo no primeiro ano de Barcelona, mostrou as duas faces que marcariam toda sua carreira: a de craque e a de "jogador problema". Era amigo de time, de alergia a treinos e de farras, de Romário, o lendário jogador brasileiro.

Sobre Romário, o craque búlgaro disse o seguinte, em entrevista ao iG Esporte em setembro de 2009.

“Pra mim, o Romário foi o melhor jogador brasileiro da história. Jogamos dois anos juntos no Barcelona. Pra mim ele era o melhor dentro da área. E também sempre tive uma boa relação com ele, com os filhos, com a ex-mulher Mônica. Então, pra mim, o Romário era o melhor amigo, o melhor profissional, o melhor na área. Muito melhor que qualquer outro”.

As ótimas performances renderam a Stoichkov a segunda posição na eleição do melhor jogador do mundo em 93, perdendo apenas para o italiano Roberto Baggio.

Depois de vários desentendimentos com a imprensa, diretoria, técnico e jogadores, Stoichkov foi vendido para o Parma. A disciplina italiana, no entanto, foi demais para o jogador que voltou um ano depois para o Barcelona.

Em 98, foi emprestado para o CSKA Sofia e em seguida repassado para disputar apenas um jogo pelo Al Nasr, do Emirados Árabes: a final da Recopa Asiática. Disputou a Copa de 98 e, aos 32 anos, nem de longe lembrava o craque do Mundial anterior.

Logo depois se transferiu para o futebol japonês. Em meados de 99 anunciou sua retirada dos gramados, mas em 2000 foi contratado pelo Chicago Fire para disputar a Liga Norte-Americana.

Títulos. Pelo CSKA Sófia. Liga Búlgara (1986-1987, 1988-1989, 1989-1990); Copa Búlgara (1987, 1988, 1989) e Supercopa Búlgara (1989). Barcelona. Liga dos Campeões da UEFA (1991-1992); Recopa Européia (1996,1997); Campeonato Espanhol (1990-1991, 1991-1992, 1992-1993, 1993-1994); Copa do Rei (1997) e Supercopa da Espanha (1992, 1993, 1995, 1996). Al Nassr.
Supercopa da Ásia (1998) e Copa dos Vencedores da Copa Asiática (1998). Kashiwa Reysol. Copa Nabisco (1999). Chicago Fire. US Open Cup (2000). DC United. MLS Cup (2004).

Principais títulos individuais e Artilharias: Artilheiro do Campeonato Búlgaro (1988-1989 - 23 gols) e 1989-1990 - 38 gols); Artilheiro da Recopa da UEFA (1988-1989 - 7 gols); Chuteira de Ouro da Europa (1990); Onde d´Or (1992); Chuteira de Ouro da Copa do Mundo da FIFA (1994 - 6 gols); Eleito para o All-Star Team da Copa do Mundo da FIFA (1994); Bola de Ouro da revista France Football (1994); Don Balón Award de Melhor Estrangeiro do Campeonato Espanhol (1994); Eleito para o All-Star Team da Eurocopa (1996); Eleito o 29º Melhor Jogador do Século XX pela revista Placar (1999); FIFA 100 (2004) e Eleito entre os 100 Melhores Jogadores do Século XX pela revista World Soccer (2007).

Após dar adeus aos gramados, Stoichkov se arriscou na carreira de técnico de futebol, passando pelo Barcelona e até pela seleção búlgara, mas seu temperamento e opiniões controversas causaram vários problemas com jogadores e geraram resultados muito abaixo do esperado. Hoje, Stoichkov ainda comanda times, mas longe dos holofotes, lá em sua terra natal.

O legado deixado em campo, porém, permanece intacto, sublime, marcante e inesquecível. Hristo Stoichkov foi um talento único, brilhou diante de centenas de milhares de torcedores pela Europa e pelo mundo, fez jogadas de gênio e mostrou que um país com tradição zero no futebol como a Bulgária poderia, sim, ter craques imortais. (Pesquisa: Nilo Dias)

Romário e Stoichkov no Barcelona. (Foto: Divulgação)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Histórias do futebol gaúcho (1)

O Campeonato Gaúcho de antigamente era disputado de uma forma bem diferente do que é hoje. Os clubes eram divididos em chaves regionais, geralmente Serra, Sul, Centro e Metropolitana. O campeão de cada uma dessas regiões disputava as partidas finais que eram realizadas em Porto Alegre.

Eu lembro bem dos campeonatos municipais, que eram mais valorizados que hoje. O campeão de cada cidade é que participava das disputas estaduais. Quando morei em Pelotas e trabalhei na imprensa de lá, rádios “Tupancy” e “Pelotense”, jornal “Diário Popular” e “Sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior”, fiz muitas coberturas desses campeonatos.

Em 1960 foi mudada a fórmula do Campeonato Gaúcho. Os certames municipais deixaram de ser classificatórios para o Estadual, passando a reunir um número fixo de equipes, com acesso e descenso.

Dia desses encontrei na Internet algumas histórias interessantes que se passaram ao tempo dos certames municipais, lembradas pelo jornalista Rogério Bohlke. O campeonato de Uruguaiana, por exemplo, era um dos mais fortes. Os times de lá, Uruguaiana, Ferro Carril e Sá Viana, todos de muita tradição, viviam tempos de glória.

Eu lembro de quando estava internado no Colégio Santa Maria, dos Irmãos Maristas, em Santa Maria. Quando havia jogos de futebol a noite, geralmente era permitida a ida até os estádios. Lembro de um jogo amistoso disputado no estádio do Riograndense, entre o periquito santa-mariense e o Sá Viana, de Uruguaiana, que tinha um timaço.

Destacava-se nessa equipe um atacante de nome Nei Sávi. Era elegante para jogar e altamente técnico. Se jogasse hoje, certamente seria titular em qualquer equipe do futebol brasileiro.

Pois bem, nessas historinhas encontradas na Internet, destaca-se uma. Em 1966, o Uruguaiana, era o time mais forte da cidade, e vencia ao Sá Viana por 1 X 0, até os 42 minutos da primeira etapa.
Foi quando aconteceu o inusitado.

Em lance de ataque do Uruguaiana, faltando um minuto para acabar o primeiro tempo, o jogador Abeguar, o craque do time, teve um profundo corte no supercílio, depois de se chocar contra um zagueiro adversário. Como saia muito sangue ele teve de ser atendido em um hospital da cidade.

O técnico do Uruguaiana era Guizzoni, que depois dirigiu o Flamengo, de Caxias do Sul e outras equipes interioranas. Na confusão que se formou o treinador não lembrou de substituir o atleta lesionado.

Naqueles tempos de antigamente a regra especificava que substituições só podiam acontecer até o final da primeira etapa. O presidente do Uruguaiana era um fazendeiro muito rico, chamado de “Funcho”, que meio desorientado na volta da equipe para o segundo tempo, gritou:

“Abeguar, não tem outro jeito. Com um a menos nós vamos perder esse jogo. Vai lá no hospital, faz um curativo, pede para te remendarem a “caixola” e volta para jogar. Se tu voltar e fizer um gol e nós vencermos, e te darei de presente uma quadra de campo povoada”.

O segundo tempo teve inicio com a vitória parcial do Uruguaiana por 1 X 0 e o time com 10 jogadores em campo. Aos 15 minutos Abeguar deu com as caras no estádio, com a a cabeça toda enfaixada. Entrou em campo e se comportou como se nada tivesse acontecido com ele e ainda fez o segundo gol do seu time que ganhou por 2 x 1.

O goleiro do Uruguaiana era Vilson Bagatini, que depois se tornou árbitro e escritor de renome, que somente sofreu dois gols em toda a temporada. É irmão de outro Bagatini, também goleiro, que entre outros clubes jogou por Flamengo, de Caxias do Sul, S.E.R. Caxias e Internacional, de Porto Alegre.

O Uruguaiana foi campeão da cidade, e depois campeão da Fronteira, tendo derrotado o 14 de Julho, de Livramento. Mas acabou perdendo a partida final para o Gaúcho, de Passo Fundo, que disputou em 1967, pela primeira vez, a Divisão Principal do futebol gaúcho.

O primeiro jogo entre Uruguaiana X Gaúcho, pelas finais, foi realizado na Fronteira, dia 11 de dezembro de 1966, com vitória jalde-negra por 1 X 0, gol anotado por Caio, aos 40 minutos da fase final. No jogo de volta, em Passo Fundo, dia 18, o Gaúcho ganhou de goleada, 5 X 0, provocando uma prorrogação.

Naquele tempo não existia saldo de gols, como ocorre hoje. No tempo suplementar o Gaúcho ganhou de novo, dessa feita por 1 X 0. Bebeto, depois apelidado de “Canhão da Serra”, que marcou o gol que levou o time de Passo Fundo ao “Gauchão”, aos 12 minutos da segunda etapa.

 O Uruguaiana, com a ajuda de fazendeiros viajou de avião para Passo Fundo. Segundo alguns pesquisadores afirmam, essa foi a primeira vez que um time gaúcho da Segunda Divisão viajou de avião. Sabe-se que a pista do aeroporto de Passo Fundo era de terra batida, o que obrigou a delegação uruguaianense ficar 20 minutos dentro da aeronave, até que a poeira baixasse.

O árbitro do jogo foi Flávio Cavedini, apelidado na época de Flavio Gavedini (alusão a gaveta), auxiliado por Juarez Oliveira e Timóteo Lopes da Costa. O time do Uruguaiana, na época uma das melhores formações de sua história jogou com Bagatini – Vera – Mujica - Bom Filho e Valmor. Paré e Volf. Paulo – Barzoni - Abeguar e Caio. O técnico era Rodolfo Guizzoni.

Mas a história não acaba por aqui. Os ricos fazendeiros que não poupavam dinheiro para ajudar o Uruguaiana, eram acostumados a frequentar os luxuosos cabarés da cidade e também da capital, quando viajavam a “negócios” até Porto Alegre.

E presenteavam os jogadores mais destacados de igual forma que as “meninas”, ou seja, botando notas de dinheiro alto, dentro dos calções dos atletas. No caso das “moças”, era na calcinha ou na cinta do espartilho.

Mas como tudo o que é bom dura pouco, ao término do ano de 1966 o Uruguaiana vendeu todo o time e fechou as portas. Entre os atletas que foram embora, sabe-se que Bagatini foi para o Flamengo, de Caxias do Sul, Bom Filho, para o Juventude, também de Caxias do Sul, Mujica para o Ypiranga, de Erechim. Valmor, para o14 de Julho, de Passo Fundo, Gonzaga e Paré, para o Brasil de Pelotas. (Pesquisa: Nilo Dias)
O Campeonato Gaúcho de antigamente era disputado de uma forma bem diferente do que é hoje. Os clubes eram divididos em chaves regionais, geralmente Serra, Sul, Centro e Metropolitana. O campeão de cada uma dessas regiões disputava as partidas finais que eram realizadas em Porto Alegre.

Eu lembro bem dos campeonatos municipais, que eram mais valorizados que hoje. O campeão de cada cidade é que participava das disputas estaduais. Quando morei em Pelotas e trabalhei na imprensa de lá, rádios “Tupancy” e “Pelotense”, jornal “Diário Popular” e “Sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior”, fiz muitas coberturas desses campeonatos.

Em 1960 foi mudada a fórmula do Campeonato Gaúcho. Os certames municipais deixaram de ser classificatórios para o Estadual, passando a reunir um número fixo de equipes, com acesso e descenso.

Dia desses encontrei na Internet algumas histórias interessantes que se passaram ao tempo dos certames municipais, lembradas pelo jornalista Rogério Bohlke. O campeonato de Uruguaiana, por exemplo, era um dos mais fortes. Os times de lá, Uruguaiana, Ferro Carril e Sá Viana, todos de muita tradição, viviam tempos de glória.

Eu lembro de quando estava internado no Colégio Santa Maria, dos Irmãos Maristas, em Santa Maria. Quando havia jogos de futebol a noite, geralmente era permitida a ida até os estádios. Lembro de um jogo amistoso disputado no estádio do Riograndense, entre o periquito santa-mariense e o Sá Viana, de Uruguaiana, que tinha um timaço.

Destacava-se nessa equipe um atacante de nome Nei Sávi. Era elegante para jogar e altamente técnico. Se jogasse hoje, certamente seria titular em qualquer equipe do futebol brasileiro.

Pois bem, nessas historinhas encontradas na Internet, destaca-se uma. Em 1966, o Uruguaiana, era o time mais forte da cidade, e vencia ao Sá Viana por 1 X 0, até os 42 minutos da primeira etapa.
Foi quando aconteceu o inusitado.

Em lance de ataque do Uruguaiana, faltando um minuto para acabar o primeiro tempo, o jogador Abeguar, o craque do time, teve um profundo corte no supercílio, depois de se chocar contra um zagueiro adversário. Como saia muito sangue ele teve de ser atendido em um hospital da cidade.

O técnico do Uruguaiana era Guizzoni, que depois dirigiu o Flamengo, de Caxias do Sul e outras equipes interioranas. Na confusão que se formou o treinador não lembrou de substituir o atleta lesionado.

Naqueles tempos de antigamente a regra especificava que substituições só podiam acontecer até o final da primeira etapa. O presidente do Uruguaiana era um fazendeiro muito rico, chamado de “Funcho”, que meio desorientado na volta da equipe para o segundo tempo, gritou:

“Abeguar, não tem outro jeito. Com um a menos nós vamos perder esse jogo. Vai lá no hospital, faz um curativo, pede para te remendarem a “caixola” e volta para jogar. Se tu voltar e fizer um gol e nós vencermos, e te darei de presente uma quadra de campo povoada”.

O segundo tempo teve inicio com a vitória parcial do Uruguaiana por 1 X 0 e o time com 10 jogadores em campo. Aos 15 minutos Abeguar deu com as caras no estádio, com a a cabeça toda enfaixada. Entrou em campo e se comportou como se nada tivesse acontecido com ele e ainda fez o segundo gol do seu time que ganhou por 2 x 1.

O goleiro do Uruguaiana era Vilson Bagatini, que depois se tornou árbitro e escritor de renome, que somente sofreu dois gols em toda a temporada. É irmão de outro Bagatini, também goleiro, que entre outros clubes jogou por Flamengo, de Caxias do Sul, S.E.R. Caxias e Internacional, de Porto Alegre.

O Uruguaiana foi campeão da cidade, e depois campeão da Fronteira, tendo derrotado o 14 de Julho, de Livramento. Mas acabou perdendo a partida final para o Gaúcho, de Passo Fundo, que disputou em 1967, pela primeira vez, a Divisão Principal do futebol gaúcho.

O primeiro jogo entre Uruguaiana X Gaúcho, pelas finais, foi realizado na Fronteira, dia 11 de dezembro de 1966, com vitória jalde-negra por 1 X 0, gol anotado por Caio, aos 40 minutos da fase final. No jogo de volta, em Passo Fundo, dia 18, o Gaúcho ganhou de goleada, 5 X 0, provocando uma prorrogação.

Naquele tempo não existia saldo de gols, como ocorre hoje. No tempo suplementar o Gaúcho ganhou de novo, dessa feita por 1 X 0. Bebeto, depois apelidado de “Canhão da Serra”, que marcou o gol que levou o time de Passo Fundo ao “Gauchão”, aos 12 minutos da segunda etapa.

 O Uruguaiana, com a ajuda de fazendeiros viajou de avião para Passo Fundo. Segundo alguns pesquisadores afirmam, essa foi a primeira vez que um time gaúcho da Segunda Divisão viajou de avião. Sabe-se que a pista do aeroporto de Passo Fundo era de terra batida, o que obrigou a delegação uruguaianense ficar 20 minutos dentro da aeronave, até que a poeira baixasse.

O árbitro do jogo foi Flávio Cavedini, apelidado na época de Flavio Gavedini (alusão a gaveta), auxiliado por Juarez Oliveira e Timóteo Lopes da Costa. O time do Uruguaiana, na época uma das melhores formações de sua história jogou com Bagatini – Vera – Mujica - Bom Filho e Valmor. Paré e Volf. Paulo – Barzoni - Abeguar e Caio. O técnico era Rodolfo Guizzoni.

Mas a história não acaba por aqui. Os ricos fazendeiros que não poupavam dinheiro para ajudar o Uruguaiana, eram acostumados a frequentar os luxuosos cabarés da cidade e também da capital, quando viajavam a “negócios” até Porto Alegre.

E presenteavam os jogadores mais destacados de igual forma que as “meninas”, ou seja, botando notas de dinheiro alto, dentro dos calções dos atletas. No caso das “moças”, era na calcinha ou na cinta do espartilho.


Mas como tudo o que é bom dura pouco, ao término do ano de 1966 o Uruguaiana vendeu todo o time e fechou as portas. Entre os atletas que foram embora, sabe-se que Bagatini foi para o Flamengo, de Caxias do Sul, Bom Filho, para o Juventude, também de Caxias do Sul, Mujica para o Ypiranga, de Erechim. Valmor, para o14 de Julho, de Passo Fundo, Gonzaga e Paré, para o Brasil de Pelotas. (Pesquisa: Nilo Dias)

O time do Uruguaiana, em 1966, era muito forte.