Boa parte de um vasto material recolhido em muitos anos de pesquisas está disponível nesta página para todos os que se interessam em conhecer o futebol e outros esportes a fundo.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Futebol, a dança do diabo

O ex-zagueiro Francisco José Sarno Matarazzo, ou simplesmente Sarno, nasceu em Niterói (RJ), no dia 5 de novembro de 1924 e faleceu em São Paulo, em 17 de janeiro de 2010, aos 85 anos de idade.

Começou a carreira de jogador de futebol atuando no Botafogo, do Rio de Janeiro, na década de 1940. O time alvinegro tinha grandes jogadores na época, como Nilton Santos, Gerson, Ávila, Ary, Juvenal, Santo Cristo, Geninho, Heleno de Freitas, Octávio e Teixeirinha.

Além do alvinegro carioca jogou pelo Palmeiras, que tinha no elenco craques da categoria de Oberdan Cattani, Fabio Crippa, Salvador, Turcão, Juvenal Amarijo, Manuelito, Dema (Ademar Lucazecchi) e Fiume.

Saiu do Palmeiras para ser emprestado ao Santos e depois ao Vasco da Gama. Sarno voltou ao Palmeiras onde permaneceu até o ano de 1954.

De acordo com os registros publicados pelo site palmeirense, Sarno disputou pelo clube 148 partidas, com 78 vitórias, 35 empates, 35 derrotas e 4 gols marcados.

Sarno ainda retornou ao time da Vila Belmiro para fazer parte do grupo que conquistou o campeonato paulista de 1955. Em seguida defendeu o Jabaquara Atlético Clube, onde encerrou sua carreira como jogador profissional em 1959, mesmo ano que iniciou sua trajetória como treinador.

Depois dirigiu a Ferroviária, de Araraquara (SP), Corinthians em apenas sete partidas pelo “Paulistão” e foi demitido após derrota para o Guarani, de Campinas por 2 X 1, dando lugar a Baltazar.

O “Cabecinha de Ouro” ficou no cargo por 32 jogos e foi demitido após o time cair de rendimento no quadrangular semifinal do “Brasileirão”. Sarno voltou ao clube, mas apenas cumpriu tabela.

Em 1972, o treinador prosseguiu no comando do Corinthians e dirigiu o time em mais 15 partidas. Mas como a equipe fazia campanha razoável no “Paulistão” - o que na época do jejum de grandes títulos era inaceitável pela diretoria - o treinador foi demitido novamente e cedeu seu lugar ao ídolo Luizinho.

No total, Francisco Sarno comandou o Corinthians em 28 jogos e teve um saldo de 10 vitórias, 10 empates e oito vitórias, 34 gols marcados e 24 sofridos. Aproveitamento de 54% dos pontos disputados.

Comandou, ainda, a Ponte Preta, Noroeste, Guarani, de Campinas, Coritiba, por 61 jogos, com 31 vitórias, 19 empates e apenas 11 derrotas, Atlético Paranaense, entre outros e também orientou times na Colômbia. Seu último trabalho em uma equipe de expressão foi no Campeonato Brasileiro de 1973 no comando do Clube Atlético Paranaense.

Francisco Sarno conquistou campeonatos como zagueiro e técnico em clubes brasileiros e os principais foram:

Como jogador: Campeão da Copa Rio pelo Palmeiras (1951); Campeão Paulista pelo Santos (1955). Como técnico: Campeão do Torneio Internacional de Verão (1968) e Bicampeão Paranaense pelo Coritiba (1968 e 1969). Comandou o “Coxa” na excursão internacional de 1969.

Também tentou a carreira de comentarista esportivo, tendo trabalhado por curto período na Radio Tupi de São Paulo, em meados da década de 1960, função que também ocupou nos anos setenta, quando estava sem contrato como treinador.

Não foi na imprensa esportiva que Sarno causou uma grande polêmica. Sim, em 1965, quando escreveu o livro “Futebol, a Dança do Diabo”, aonde relatou os bastidores e o submundo da bola.

Eu tenho o livro em minha biblioteca, e realmente trata-se de uma obra para ser lida e guardada. Embora Sarno tenha estudado por apenas dois anos do curso primário, conseguiu colocar no livro o que aprendeu na escola da vida, onde atuou 25 anos no futebol como jogador consagrado.

O leitor encontra na obra relatos quase inacreditáveis, humanos e comoventes, envolvendo o submundo do futebol, de onde saíram heróis e párias de uma sociedade desumana.

Nas páginas do livro, entre tantos assuntos, Sarno escreveu que o cargo de treinador era um perfeito “Rabo de Foguete”, bem diferente do comodismo da função de Supervisor de Futebol.

Sarno, na apresentação do livro escreveu que o futebol, essa dança do diabo, servia de trampolim para muitos homens autênticos que sonharam em ser alguém na vida, sem se importar com às consequências de seus atos para criaturas honestas e boas, que sofreram terrivelmente.

Ainda em sua faceta literária, Sarno escreveu “Coquetel de Verdades”, obra lançada em 1971, sem o mesmo sucesso do anterior.

Sarno sofreu nos últimos anos, do “Mal de Alzheimer“ e em decorrência da doença faleceu no domingo, dia 17 de janeiro de 2010, na cidade de São Paulo. (Pesquisa: Nilo Dias)


domingo, 3 de dezembro de 2017

O Pantera cor de rosa

Quem não lembra de Roberto Nunes Morgado, um conhecido árbitro de futebol, nascido em São Paulo, capital, em 1946 e falecido em 26 de abril de 1989, aos 43 anos de idade? 

Ficou famoso por imitar o estilho espalhafatoso de Armando Marques, um dos melhores juízes do futebol brasileiro em todos os tempos. Morgado foi polêmico, adorava chamar a atenção durante os jogos que arbitrava.

Não era muito alto, media 1,71 metro e pesava somente 59 kg. Por isso ganhou o apelido de “Pantera cor de rosa”. A cada lance que apitava, costumava fazer indicações exageradas, levando as torcidas ao delírio.

Mas ninguém podia dizer que não era corajoso. Prova disso é que num jogo entre Vasco da Gama, do Rio de Janeiro e Ferroviário, do Ceará, pelo Campeonato Brasileiro de 1983, expulsou a Polícia Militar de campo, mostrando cartão vermelho e tudo.

Em razão disso a Comissão Brasileira de Arbitragem exigiu que fosse feito um exame de sanidade mental nele. Mas Morgado não mostrou nenhuma preocupação com isso. Ao contrário, levou na brincadeira e disse que se tornara o único juiz da praça que tinha atestado de sanidade mental.

Há algum tempo atrás, Roberto Nunes Morgado tinha sido assaltado e ferido com certa gravidade. Necessitou ficar internado e sua maior preocupação era saber se poderia voltar a apitar.

Os médicos notaram que a recuperação dos ferimentos era rápida, mas a psicológica não corria tão bem. A arbitragem era o seu único caminho, e o medo de não poder mais vestir o uniforme negro, rezar muito nos vestiários e ser o todo poderoso das partidas, era intenso.

Os episódios anteriores a internação foram muitos e todos lhe provocaram reações de desespero. Problemas pessoais, sentimentais, profissionais. Era filho único de uma família humilde.

Roberto Nunes Morgado sempre foi escolhido para dirigir jogos importantes. Umbandista por convicção chegava sempre com uma hora e meia de antecedência aos estádios onde iria trabalhar, pois seu ritual demorava quase uma hora, com reza aos seus orixás.

Mas ele começou a mudar depois de ter sido ferido. Tornou-se mais introvertido, com sintomas de displicência, deixou o emprego que tinha de relações públicas na “Churrascaria Boi na Brasa”, alegando que precisava dormir cedo e não queria andar a noite pelas ruas de São Paulo.

Passou a viver somente das arbitragens e com pouca atividade, o que lhe ocasionou um grande tempo ocioso, que serviu para refletir, raciocinar. Percebeu a sua importância para os pais – dependentes dele – e verificou um futuro incerto, repleto de altos e baixos.

A sua queda psicológica foi flagrante. Insistia em recusar a ajuda de alguns amigos e suas arbitragens começaram a provocar dúvidas e contestações, algo raro na sua carreira.

As pessoas criticavam seus trejeitos, atitudes arrogantes, lembrando Armando Marques, mas não atacavam suas boas condições técnicas e físicas. Entretanto, abatido, a preparação física foi esquecida e os reflexos diminuíram.

Em 26 de junho de 1981 a Federação Paulista de Futebol resolveu interna-lo em uma clínica importante, conhecida, famosa. Local de recuperação física e mental, ideal para repouso, desintoxicação e sonoterapia.

O tratamento era caro. Somente pessoas abastadas ou uma entidade assumindo as despesas, poderiam usufruir das comodidades do local.

Lágrimas escorriam dos olhos de Roberto Nunes Morgado, mas ele admitia não ter outra solução. Estava apavorado, vivendo uma enorme crise emocional, um verdadeiro drama.

Os episódios anteriores a internação foram muitos e todos provocaram reações de desespero no árbitro de futebol. Problemas pessoais, sentimentais, profissionais.

Apesar de tudo isso, os médicos garantiam que ele poderia voltar a apitar normalmente. Ficaria totalmente recuperado, afirmavam os especialistas e viveria tranqüilo.

Os problemas sentimentais ajudaram muito a chegada do desespero e Morgado chegou a confessar que “queria morrer, desacreditava em Deus e seria melhor para todos, ele desaparecer…”.

O médico Osmar de Oliveira, outro amigo de Morgado, o atendeu dezenas de vezes nas mais variadas horas do dia e da noite. Preocupado com a sua saúde, Morgado queria vitaminas, análise cardíaca, pulsação.

Queria o amigo médico para certas confissões e desabafos. Tinha medo de perder a condição de aspirante do quadro da FIFA e ao mesmo tempo não conseguia reagir ao abatimento que o envolvia.

Foi aconselhado a procurar um psicólogo. Depois de algumas consultas começou a mostrar sintomas de recuperação. Aquele medo, aquela “mania” de doença, aqueles traços de insegurança pareciam estar desaparecendo.

Mas o rompimento amoroso, a dependência da arbitragem, a família precisando dele, provocaram uma crise emocional fortíssima. Às cinco horas da madrugada de um domingo em que jogariam Ponte Preta e São Paulo, em Campinas, o médico Osmar de Oliveira foi acordado.

Morgado precisava dele. Estava afobado, nervoso, não conseguia dormir e iria apitar naquela tarde um verdadeiro clássico em Campinas. Estava desesperado e não conseguia controlar-se.

O médico o encaminhou para o Hospital Bandeirante e recebeu o tratamento necessário acrescido de um calmante. Em vista deste fato, Osmar de Oliveira proibiu que ele trabalhasse no jogo Ponte Preta e São Paulo.

O diretor do departamento de árbitros não foi localizado e o secretário-geral da Federação Paulista de Futebol assumiu o problema e substituiu Morgado por Almir Laguna.

Seu último jogo como profissional do apito foi a segunda semifinal do Campeonato Paulista de 1987, entre São Paulo e Palmeiras. Sua atuação ficou marcada pelo fato de ter expulsado quatro jogadores do alviverde, tendo sido bastante criticado por isso.

Depois do jogo o árbitro foi vetado para o restante do Campeonato Brasileiro daquele ano. Não conseguiu atingir a nota mínima em uma prova por escrito da Comissão Brasileira de Arbitragem de Futebol.

Homossexual assumido ficou famoso por frequentar seguidamente a boca do lixo paulistana ao lado de um grupo de amigos. Em fevereiro de 1988 foi internado no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, com Aids. Abandonado pelos amigos e pela esposa morreu um ano depois.

Esse paulista chegou rápido ao quadro de aspirantes da FIFA. Com ele, trouxe um currículo carregado de controvérsias. Por duas vezes foi internado na Clínica Maia, uma casa de tratamento para problemas psicológicos, em São Paulo.

Entre os amigos, porém, Morgado gozava de outra fama. Nos quarteirões formados pelas ruas Rego Freitas e Marques de Itu, em plena Boca do Lixo, no centro de São Paulo, ele era uma espécie de rei.

Seus súditos, um grupo entre cinco ou 10 pessoas, boa parte homossexuais como ele. Na hora das farras, Morgado era quem pagava a conta. O pessoal explorava o Morgado.

Depois do diagnóstico de Aids, todos se afastaram dele. Nenhum dos antigos amigos doou 1 real sequer quando foi passada uma lista de contribuição. Nenhum deles o visitou no hospital.

Antes de falecer, internado na Clinica Bezerra de Menezes, em São Bernardo do Campo, Nunes Morgado pediu um novo exame de Aids. A entrega dos resultados acabou se transformando no pior momento de sua vida.

Ele recebeu trêmulo o envelope lacrado com o resultado do exame. Ao ler o que todos já sabiam, começou a chorar e a gritar: “Eu não tenho Aids coisa nenhuma! É meningite! É só um problema de pulmão! Quero um terceiro exame. Este aqui é fajuta”, acusou entre lágrimas.

Nunes Morgado chegou a voltar para casa, ficar junto com a família. Uma semana depois, mesmo com proibição médica, ele tomou uma garrafa de pinga. Quando voltou para seu apartamento na Praia Grande, bateu na mulher e chutou o filho.

Morgado estava completamente embriagado. Foi obrigado a se internar novamente na Clínica Bezerra de Menezes. Desde então seu estado de saúde foi piorando. Com o tempo ele ficava cada vez mais fraco. Sua morte foi inevitável, no dia 26 de abril de 1989, com apenas 43 anos de idade. (Pesquisa: Nilo Dias)


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Petkovic, o "Rambo" sérvio (Final)

No início de 2005, "Pet" foi contratado pelo clube saudita do Al-Ittihad, voltando ao Rio de Janeiro em agosto, para jogar no Fluminense. Sua estreia, no dia 24, foi contra o São Paulo, em empate em 1 X 1 no Morumbi.

O ano de 2006 acabou sendo amargo nas Laranjeiras. Apesar dos altos investimentos da patrocinadora Unimed (que trouxe Tuta, Pedrinho, Rogério e Cláudio Pitbull), o clube não passou da primeira fase nos dois turnos do Campeonato Carioca.

Em janeiro de 2007, transferiu-se para o Goiás. Após o término do Campeonato Goiano,(em que o campeão foi o Atlético Goianiense), Petković rescindiu seu contrato no início do Brasileirão, insatisfeito com cobranças que julgava excessivas.

O jogador acertou então com o Santos, do técnico Vanderlei Luxemburgo, com a missão de substituir Zé Roberto, se tornando o 52º jogador dentre todos os jogadores estrangeiros do alvinegro. Porém, teve uma sequência irregular de boas partidas e foi dispensado ao final do ano.

Em março de 2008, foi para o Atlético Mineiro como a grande contratação nas comemorações do centenário do clube. Foi um dos poucos que teve atuações razoáveis no decepcionante ano dos alvinegros.

Ao final do ano perdeu espaço por causa de problemas físicos. Sua saída foi anunciada pelo técnico Emerson Leão assim que este assumiu o cargo, em 17 de dezembro. O mesmo treinador já o havia dispensado quando assumira o Santos, no final do ano anterior.

Sete anos depois Petković retornou ao Flamengo em um acordo para diminuir o valor que o clube lhe devia. Em 20 de novembro de 2009, já havia deixado sua marca na história do Maracanã, sendo o quinto estrangeiro a ser eternizado na Calçada da Fama do estádio (depois de Elías Figueroa, Romerito, Franz Beckenbauer e Eusébio).

Depois de cinco meses sem disputar uma partida, Petković finalmente foi reintegrado ao grupo para uma despedida. Entrou em campo pela última vez para um jogo oficial em 5 de junho de 2011, enfrentando o Corinthians pelo Campeonato Brasileiro.

Jogou o primeiro tempo do empate em 1 X 1. No intervalo, recebeu uma placa comemorativa da presidente do clube, Patrícia Amorim, e deu a volta olímpica na pista do “Engenhão”, sendo ovacionado pela torcida rubro-negra.

Petković, após defender seleções de base da Iugoslávia, fez partidas esporádicas pela então Seleção Iugoslava principal entre 1995 e 1999.

Sua transferência do poderoso Real Madrid para o Vitória e, antes disso, discussões com o então técnico Slobodan Santrač ainda em 1995 acabaram prejudicando-o, não sendo chamado para a Copa do Mundo de 1998.

Antes de tudo isso, o banimento imposto à seleção pela FIFA entre 1991 e 1994 devido à Guerra Civil Iugoslava foi outro fator que não lhe deixou ter mais partidas, justamente na época em que despontava no Estrela Vermelha e era considerado um dos mais promissores talentos europeus.

Em 1995, a Iugoslávia jogou sete vezes, com Petković finalmente atuando: participou das últimas cinco partidas, três como titular e vencendo quatro.

Curiosamente, foi justamente na única derrota da Seleção, no “Marakana”, apelido do estádio do Estrela Vermelha, que ele marcou o que seria seu único gol pela seleção, contra a Rússia.

Na última partida do ano, contra os mexicanos a relação de Petković com o técnico Santrač, deteriorou de vez. Temperamental, o jogador questionou a capacidade do técnico, que, não o utilizou mais e, com isso, o deixou de fora da Copa do Mundo de 1998.

Petković só voltou à Seleção após o torneio, em novo amistoso do país contra o Brasil, em setembro, no Maranhão, quando Milan Živadinović já era o técnico..

Foi titular no 1 X 1 contra os brasileiros, mas, como ainda estava no Vitória, e por aquele retorno ter sido também sua última partida pela Iugoslávia, ele declarou anos mais tarde que acredita que só foi chamado na ocasião pois seria um bom tradutor para a delegação, apesar de Živadinović tê-lo treinado no Estrela entre 1992 e 1994.

Decidido a jogar no futebol brasileiro, Petković perdeu visibilidade com os treinadores que se seguiam no comando da Iugoslávia, não sendo chamado por Vujadin Boškov para a Eurocopa 2000.

Chegou certa vez a desabafar à Placar que, se tivesse permanecido no Venezia, clube segundo ele mesmo "dez vezes mais fraco que o Flamengo (sua equipe à época)", continuaria a ser chamado.

Com o fim da Iugoslávia e o surgimento da Sérvia e Montenegro, chegou a acalentar esperanças de poder jogar pela Seleção Brasileira, visto que a seleção que já defendera não existia mais, o que o tornaria livre para jogar por outra.

Aos 33 anos quando o país se separou, às vésperas do mundial, Petković tampouco foi chamado para defender a nova Seleção Sérvia. Em 2009, o então técnico da Sérvia, Radomir Antić, declarou-se feliz com o sucesso de "Pet" no Brasil, mesmo com a idade avançada de 37 anos.

Em 26 de dezembro de 2013, foi anunciado como gerente das categorias de base do Atlético Paranaense, além de comandar a equipe sub-23 do “Furacão”, que substituiu a equipe principal, durante o Campeonato Paranaense de 2014.

No dia 12 de junho de 2015 foi anunciado como técnico do Criciúma para o Campeonato Brasileiro. No dia 13 de março de 2016, Petković foi anunciado como novo treinador do Sampaio Corrêa.

Em 11 de maio de 2017 foi anunciado como treinador pelo Vitória, ocupando também o cargo de gerente de futebol. Em 3 de junho deixou o cargo de treinador, passando a ficar somente como diretor de futebol e anunciou Alexandre Gallo como seu substituto na função.

Petković é formado em enfermagem, tendo realizado o curso de formação paralelamente ao início de sua carreira, no Radnički Niš. A continuidade dos estudos foi uma exigência dos pais, Dobrivoje e Milena, para permitir a carreira futebolística.

No curso, conheceu e passou a namorar a mulher que se tornou sua esposa, Violeta. Sua adaptação e a de sua esposa e filhas ao Brasil (onde investiu em imóveis, além de ser sócio de uma pizzaria) foi tão boa que se divulgou que todos chegaram a começar um processo para naturalizarem-se.

Ele, a esposa e as filhas, Ana e Inês, falam português fluentemente. O aprendizado do casal tornou-se de certa forma mais fácil por já saberem falar espanhol, após os dois anos passados na Espanha.

Entretanto, a notícia da naturalização seria posteriormente desmentida pelo próprio "Pet": "Não estou me naturalizando, nem minha família. A burocracia aqui é absurda. Sou um cara que moro aqui há muitos anos e não tenho nem visto de permanência, só de trabalho".

Pet já recebeu, em novembro de 2009, os títulos de benemérito e de cidadão do Estado do Rio de Janeiro, na Assembleia Legislativa Fluminense. Em 2010 foi condecorado com a Ordem do Rio Branco.

Petković já admitiu sentir saudades de quando seu país, à época Iugoslavia, era controlado por um regime socialista, afirmando que naquele tempo havia forte incentivo ao esporte e que a população vivia em ótimas condições e com emprego.

Em 2011, Boban Petković, irmão do jogador, produziu o filme “O Gringo” ao lado dos cineastas Leonardo Edde e Darko Bajić. O documentário, com entrevistas e imagens de gols de Petković por vários clubes, foi exibido no Brasil e na Sérvia naquele mesmo ano. (Pesquisa: Nilo Dias)


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Petković, o "Rambo" sérvio (1)

Dejan Petković, foi um dos grandes jogadores que vestiram a camisa do Clube de Regatas Flamengo, do Rio de Janeiro, em toda a sua história. Não era brasileiro. Nasceu em Majdanpek, Sérvia, antiga Iugoslávia, no dia 10 de setembro de 1972.

Ainda jovem mudou-se para a cidade de Niš para jogar nas categorias de base do clube local, o Radnički Niš. Estava seguindo os passos do irmão mais velho, Boban, e do pai, Dobrivoje, que também foram jogadores desse clube.

Tornou-se o mais jovem jogador da história do futebol iugoslavo a atuar numa partida oficial, estreando em 25 de setembro de 1988 (quando tinha 16 anos e 15 dias de idade) em vitória por 4 X 0 sobre a equipe bósnia do Željezničar Sarajevo.

No Radnički, ganhou o apelido pelo qual ficou conhecido em sua terra natal, “Rambo”, em referência ao personagem de Sylvester Stallone, por seu físico robusto à época. Até hoje, faz contribuições ao seu primeiro clube, entre material esportivo e dinheiro.

O grande salto na sua carreira ocorreu em 1991, quando foi para o poderoso Estrela Vermelha, de Belgrado, capital da então Iugoslávia e que recém havia conquistado o título da “Copa dos Campeões da UEFA”. Ficou no clube até 1995.

Em sua primeira temporada, 1991/1992, o Estrela Vermelha foi campeão iugoslavo e faturou também a “Copa Intercontinental”, mas Petković não chegou a ter participação relevante nos dois títulos.

Ainda não havia conseguido espaço no elenco, repleto de jogadores de renome inclusive internacional, como Dejan Savićević, Darko Pančev, Siniša Mihajlović, Vladimir Jugović e Miodrag Belodedici.

Aquela edição, a última do campeonato iugoslavo a ter contado com equipes macedônias e bósnias, marcou também a saída destes astros que, com o agravamento da Guerra Civil Iugoslava, foram jogar no exterior.

A equipe do Estrela precisou então ser reformulada e “Rambo” finalmente obteve chances. Por dois anos, foi o arquirrival Partizan quem faturou o campeonato. Até que, na temporada 1994/95, Petković foi o grande nome no meio-campo do grupo que reconquistou a liga iugoslava.

Ele foi o único campeão a jogar as 36 rodadas, sobressaindo-se em relação a colegas que posteriormente tiveram mais prestígio na Europa que ele, como Goran Đorović, Darko Kovačević e Dejan Stanković.

Depois dessa conquista, foi contratado pelo Real Madrid. Quem esperava que explodisse no grande clube espanhol, se enganou. Isso não aconteceu. Contratado em agosto, foi obrigado a ficar por mais cinco meses no Estrela Vermelha, que se classificou para a fase preliminar da Liga dos Campeões da UEFA de 1995.

O clube acabou eliminado precocemente, mas Petković só chegou ao Real em dezembro. Apesar de ter feito uma estreia de luxo, em que marcou o gol da vitória do seu time por 3 X 2 no clássico contra o Atlético de Madrid, em jogo amistoso realizado no dia 29 de dezembro em Alicante, valendo o “Troféu de Natal”, não conseguiu mais chances com o técnico Jorge Valdano.

Em razão disso, ele foi emprestado ao Sevilla, dando espaço para o Real contratar o croata Davor Šuker. O empréstimo durou quatro meses.

No Sevilla, Petković foi titular, mas era quase sempre substituído, sob a justificativa de que só ficaria no clube até meados de 1996 e o clube precisava armar um esquema sem ele.

Pet não teve sorte mesmo. Na mesma rodada em que estreou pelo Sevilla, o Real perdeu e Valdano foi demitido. Para piorar, fraturou o pé pouco tempo depois.

Quando o empréstimo terminou e ele voltou ao Real, desentendeu-se com o novo treinador, o italiano Fabio Capello, e foi novamente emprestado, desta vez para o Racing Santander.

Teve uma passagem ruim pelo Racing. Foi quando aceitou convite do time brasileiro do Vitória, da Bahia, que o descobriu após participar de um torneio amistoso em que o sérvio se destacou pela equipe B do Real.

O rubro-negro baiano, em parceria com o Banco Excel, contratou também as estrelas Túlio e Bebeto. O "gringo" veio justamente para substituir Bebeto, que fora para o Botafogo, do Rio de Janeiro.

Inicialmente, o grande objetivo de Petkovick, ao aceitar a proposta de empréstimo ao Vitória, era jogar bem para atrair nova atenção europeia.

Desconhecido no Brasil, poucas eram as expectativas em cima dele, que, logo na estreia, contra o União São João, marcou um gol de falta e deu passe para Túlio também marcar no empate por 2 X 2 contra o time paulista.

Em oito partidas em 1997, marcou duas vezes. Em 1998, começou o ano em ritmo vagaroso, marcando poucos gols, mas ainda assim se destacando.

Acabou sendo vice-campeão do Campeonato Baiano e do torneio regional, contabilizando 11 gols nas duas competições.

No Brasileirão de 1998 marcou 14 gols em 21 partidas, fazendo com que o São Paulo chegasse a oferecer suas promessas França e Dodô por ele, na época.

Seus gols e assistências ficaram marcados na memória da torcida leonina, com a boa fase seguindo no ano seguinte, o do centenário do Vitória. No Estadual foi o artilheiro com 19 gols em 16 jogos.

Porém, se machucou, quando da final do Campeonato Baiano de 1999, marcada por guerras judiciais. A Justiça achou por bem declarar Vitória e Bahia campeões.

Em 1999, Petković também se consagrou como artilheiro da Copa do Brasil, ao lado de Romário, mesmo com o Vitória sendo eliminado ainda nas oitavas-de-final frente ao Palmeiras.

Petković conseguiu seu retorno ao futebol europeu, sendo contratado pelo Venezia, da Itália, indo no meio do ano para jogar a temporada 1999-2000.

Em agosto de 1999, mesmo tendo saído recentemente, o iugoslavo foi eleito pela “Revista Placar”, com 44% do júri popular o maior jogador do Vitória no século XX.

Na Europa, "Pet" ficou novamente sem espaço, decidindo aceitar um retorno ao Brasil no semestre seguinte, no início de 2000, desta vez para o Flamengo, do Rio de Janeiro, que pagou 7 milhões de dólares por sua contratação.

No primeiro semestre de 2001, após um fraco Torneio Rio-São Paulo do Flamengo, Petković viveu uma das melhores fases de sua carreira. Conquistou dois títulos estaduais e um nacional.

Destacou-se especialmente por suas ótimas cobranças de faltas, sendo que duas foram decisivas em finais daquele ano contra o Vasco da Gama (Campeonato Carioca) e São Paulo (Copa dos Campeões).

No coração da massa rubro-negra, Petković virou "Pet". Com tantos momentos marcantes, incluindo ainda um em que a torcida cantou-lhe parabéns em partida realizada no dia de seu aniversário, o sérvio finalmente passou a considerar o Brasil sua segunda casa.

Afetado por três meses de salários atrasados, chegou a ajuizar ação contra o clube para obter seu passe na véspera do segundo jogo da semifinal da Copa Mercosul de 2001, fora de casa, contra o Grêmio, dias antes também da partida decisiva contra o Palmeiras que poderia livrar a instituição do rebaixamento.

Porém, no início de 2002, o ambiente voltou a ficar ruim na Gávea, com a perda da Copa Mercosul nos pênaltis para o San Lorenzo (a decisão seria em dezembro de 2001, mas a partida na Argentina teve de ser adiada para janeiro em razão dos tumultos populares gerados pela crise econômica que assolava o país).

E, posteriormente, com a decepcionante campanha na Libertadores, onde o Flamengo foi eliminado na primeira fase, ficando em último em seu grupo. O time também ficou longe das fases finais do Torneio Rio-São Paulo e do Campeonato Carioca de 2002.

Chegou ao Vasco da Gama no meio de 2002, em surpreendente transferência do rival, não chegando a ser campeão carioca pelo clube cruzmaltino, pois se transferira pouco antes para o futebol chinês.

Começava a cair nas graças da torcida quando foi anunciada sua saída em virtude de um contrato de mais de R$ 10 milhões oferecido pela equipe chinesa do Shanghai Shenhua.

Após um ano na China (onde faturou o campeonato local), chegou a ser sondado pelo Botafogo, justamente o único grande time carioca que ainda não defenderia. Petković voltou ao Rio de Janeiro para jogar novamente no Vasco, durante o Campeonato Brasileiro de 2004.

Tendo liderado a equipe na campanha que garantiu a permanência, marcando 18 gols e distribuindo 11 assistências (sendo artilheiro e maior "garçom" do elenco), Petković recebeu finalmente sua primeira Bola de Prata da Revista Placar, tornando-se o primeiro (e, até o holandês Clarence Seedorf ganhar a sua, em 2013, o único) europeu a ganhar a premiação. (Continua amanhã) (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Há 22 anos ouvindo insultos raciais

O jogador colombiano, Carlos Sánchez, nasceu em San Andrés e Providencia, mas cresceu em Barranquilla. Está com 32 anos e reside há 22 em Pontevedra. Joga no San Martín de Vilaxoán, time da Primeira Divisão regional.

Cansado de ser vitima de insultos raciais recebidos nos campos de jogo, mostrou-se disposto a parar de jogar futebol. Já nem sabe quantas vezes foi chamado de “negro de merda”. Ate´sua mãe, que era a sua maior fã, deixou de ir vê-lo jogar depois do que aconteceu um dia em que chegou ao campo com a partida já começada:

E ao perguntar como estava o jogo, alguém lhe respondeu: “Estamos perdendo de 3 X 0 e o último gol foi marcado por aquele negro.” De imediato a senhora respondeu: “Aquele negro é meu filho.”

Ser chamado de “macaco” e “negro de merda” virou rotina na vida de Carlos Sanchez.  Os campos onde seu time joga não comportam mais do que 200 pessoas. Desde que chegou ao time do San Martin, convive com insultos.

Lembra de uma partida de juniores em que ele fez dois gols, e dedicou um deles aos que o chamavam de “negro de merda”. Terminado o jogo, o pai de um menino que o xingava, desceu da arquibancada e tentou lhe bater. Foi o técnico de seu time que o impediu.

Embora tenha o apoio de seus amigos, estes o aconselham a que não ligue para os xingamentos. Eles acham que devo ficar imune a tudo porque, como ouço isso há muitos anos, pensam que estou vacinado e consideram isso normal.

Quando falam isso prefiro ficar calado e me dedicar ao jogo. Eles não entendem que isso afeta Carlos e lhe cria uma tensão emocional danada que o faz sentir-se mal. E se defende dizendo que o ingresso para o jogo não inclui o direito ao insulto.

Quando Carlos foi entregar seu pedido de afastamento do clube, devido uma lesão em um acidente, encontrou o presidente e seus assistentes comendo bolo para celebrar o aniversário de um deles. Disse que algumas semanas de repouso seriam boas para afastar-se de tudo e voltar à normalidade.

Duas semanas antes, na arquibancada do campo de Marcón, voltou a escutar insultos raciais. Desta vez, o árbitro registrou-os na ata: “Negro de merda”, “Macaco”, “Vá para Melilla” (cidade espanhola na África), e a federação galega puniu o clube com multa de 301 euros e uma partida a portas fechadas.

No final do primeiro tempo, Carlos Sánchez enfrentou o torcedor que o xingava. Disse que ele era corajoso o xingando lá de cima e o chamou para que dissesse tudo o que quisesse no final da partida.

Ao fim do jogo, os colegas o seguraram antes que as coisas piorassem. Nervoso, Sanchez disse que foi bom lhe segurarem e o levarem para o vestiário, pois caso contrário iria bater no torcedor.

Logo que entrou no vestiário anunciou que ia embora. Tremia de tão nervoso. Voltou para casa a pé, recusando ofertas de carona em carros. Andou quatro quilômetros. Nem sabia o que estava fazendo. Só precisava esquecer tudo, andar e arejar a cabeça, contou.

Colegas, técnico e presidente deixaram-no respirar por alguns dias e Carlos finalmente decidiu que não fazia sentido jogar a toalha.

Decidiu continuar porque é o que ele mais gosta de fazer. Se saísse seus opressores achariam que ganharam. E disse que é um lutador e quer lutar, mesmo que continue sendo ofendido.

No jogo seguinte, o seu time vestiu uma camisa com a mensagem “stop racism”, adotou um protocolo e convidou outros clubes a fazer o mesmo.

Também avisaram o trio de arbitragem e o diretor de campo falou que eles tem na equipe um jogador negro e pediram, caso houvessem gritos racistas, que tomassem medidas enérgicas.

E advertiram que se os insultos ocorressem não estariam dispostos a tolerá-los. E se preciso fosse, até sairiam de campo, cientes de que iriam enfrentar multas e perdas de pontos.

E acrescentaram que tudo é tão surreal que acabariam punindo o prejudicado. Em razão disso passaram a gravar as partidas para terem provas em caso de sanções.

Carlos Sanchez até fez um “mea culpa”, dizendo que não é santo e que fez coisas ruins no passado, teve brigas, bebedeiras, como todo mundo. Mas como é negro, muita gente pensa que ele não é vítima e que não passa de um provocador.

Fica incomodado ao ser julgado por coisas que fez no passado. Foi assim que ele se apresentou ao jornalista que o procurou na estação ferroviária. Caminhou rápido, sem mostrar nenhum resquício de sotaque colombiano. Ainda aprendeu a língua galega.

Sanchez, além de jogar futebol, fez um curso de atividades de animação físico-esportivas para se tornar monitor. Disse que se adaptou muito bem à Espanha, e que na rua sempre se sentiu uma pessoa como outra qualquer. Os insultos raciais só ocorrem nos campos de futebol.

No início, quanto mais gritavam negro, mais ele se motivava. Era tão atrevido ao ponto de dizer podiam lhe xingar a vontade. Em resposta faria um par de gols. Mas nos últimos anos os insultos passaram a lhe afetar ao ponto de não aguentar mais. (Pesquisa: Nilo Dias)


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O maior craque pelotense da história

Mário Reis é considerado o melhor jogador que vestiu a camisa gloriosa do Esporte Clube Pelotas, em toda a sua história. Era natural de Pelotas, onde nasceu em 12 de fevereiro de 1904.

Começou a jogar em times organizados em 1916, quando vestiu a camisa do rival Grêmio Esportivo Brasil, na categoria Infantil. Naquele tempo se tornou sócio honorário do clube “Xavante”. Saindo do Brasil ingressou no S.C. Rio Branco, clube fundado em 25 de setembro de 1910.

O Rio Branco tinha sua sede social à rua 7 de Abril 314 e o campo todo cercado à rua Barroso, entre Gomes Carneiro e Independência. Suas cores eram branca e vermelha.

Foi depois para o Grêmio Sportivo Guarany, fundado em 12 de dezembro de 1909, que tinha campo de jogo a rua José Garibaldi, ao lado da Companhia Fiação e Tecidos Pelotense, com as cores vermelha, verde e amarela.

Em 1924, atendendo a um pedido do diretor áureo-cerúleo Dinarte Tavares, Mário Reis foi para o S.C. Pelotas. Naquele mesmo ano jogou várias partidas amistosas pelo clube áureo-cerúleo.

Não houve campeonato da cidade, devido a revolução paulista, que se estendeu por quase todo o país, atingindo inclusive o Rio Grande do Sul.

O primeiro campeonato municipal em que Mário Reis participou foi em 1925, conquistado o título. O time do Pelotas tinha como formação básica: Thadeu – Talavera e Borches. Floriano – Beto e Borba. Nenê – Faéco – Tutú – Mário Reis e Dinarte.

Ainda foi campeão citadino nos anos de 1928, 1930, 1932, 1933 e 1939, e campeão gaúcho em 1930. O time que conquistou o Estadual formava basicamente com: Bordini – Suzana e Grant.  Coi II – Marcial e Tristão. João Pedro (Benjamim) – Torres – Tutu – Mário Reis e Chico.

Mario Reis fez parte da equipe que representou o Rio Grande do Sul no Campeonato Brasileiro de Futebol por três vezes, em 1926, 1928 e 1931. Em 1928 foi convidado para capitão do quadro, mas recusou a honrosa investidura.

Como integrante da Seleção Gaúcha, Mário reis enfrentou conjuntos paulistas, cariocas, paranaenses, paraenses, pernambucanos e catarinenses.

Mario Reis no tempo em que jogou foi a maior expressão do futebol pelotense. A sua real capacidade técnica ofereceu-lhe ocasiões de engrandecer o renome do “soocer” da cidade, não só no Estado como fora dele.

O grande Friendereich, referindo-se aos jogadores gaúchos que melhor impressão lhe causaram, citou dois: Eurico Lara e Mário Reis.  A opinião de “El Tigre”, insuspeita no caso, é a mais legitima afirmativa do valor do craque.

Os saudosistas diziam que Mário Reis foi o maior jogador surgido em plagas gaúchas. Era tão bom que recebeu várias propostas de clubes de fora do Estado, mas acabou não aceitando, preferindo ficar no “Lobão”. Tinha um passe perfeito e uma colocação inigualável, sendo que seus lançamentos sempre acabavam nos pés de um companheiro.

Encerrou a carreira em 1939, com uma vitória sobre o G.E. Brasil por 3 X 1 e com o título de Campeão Pelotense. Alguns anos mais tarde, era comum ver Mário Reis nos treinos do Pelotas, ou sentado nos bancos da praça Coronel Pedro Osório com seu grande amigo e companheiro Tutu, relembrando as grandes jornadas no áureo-cerúleo. (Pesquisa” Nilo Dias)


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O primeiro negro a jogar por uma Seleção

Há 135 anos, Andrew Watson, zagueiro do escrete escocês, se tornou o primeiro jogador negro a envergar a camisa de uma seleção nacional. Algo marcante, ainda mais em uma época que a segregação era bem mais explícita.

Não só isso: foi também o capitão e liderou o time da Escócia na impiedosa goleada de 6 X 1 sobre a Seleção da Inglaterra, no dia 12 de março de 1881, nove anos depois do primeiro jogo internacional da história, exatamente contra os dois scratchs.

Ele ainda vestiu a camisa da Escócia em outras duas partidas, duas novas goleadas: mais um 5 X 1 no País de Gales e 5 X 1, de novo na Inglaterra, sua última partida pela equipe nacional em 11 de março de 1882.

Hoje em dia se vive momentos de intolerância no futebol, mundo afora. Por isso não custa resgatar a história de um pioneiro, que eternizou seu nome no esporte, muito antes que o profissionalismo ajudasse a superar as divisões, na Inglaterra ou no Brasil.

A maioria das pessoas com certeza nunca ouviu falar de Andrew Watson. Ele nasceu da miscigenação e, ao contrário de muitos com história parecida, não foi renegado por seu pai. Era filho de Peter Miller Watson, rico barão do açúcar na Guiana, com uma ex-escrava chamada Anna Rose.

O latifundiário assumiu a criança e a colocou em berço de ouro, deixando-lhe uma vasta herança quando Andrew ainda era adolescente.

Watson nasceu em Demerara, British Guiana, em 18 de maio de 1857 e tinha dupla nacionalidade (escocês).

O guianês foi educado no tradicional King’s College, de Londres e seguiu para a Universidade de Glasgow, onde estudou filosofia natural, matemática e engenharia.

E justamente na faculdade, quando tinha 19 anos, é que começou a ter contato com o futebol, cujas regras haviam sido estabelecidas 12 anos antes.

Pouco depois de iniciar a carreira no Maxwell e passar pelo Parkgrove, acertou com o Queen’s Park, grande potência do futebol britânico na época, para trilhar estrada vitoriosa.

Na equipe, esse zagueiro descrito como um jogador de grande velocidade, de ótimos passes e um chute poderoso, conseguiu ajudar sua equipe a conquistar dois títulos da Copa da Escócia (1880 e 1881), e assim tornou-se reconhecido nacionalmente, se transformando no primeiro negro a conquistar um torneio oficial.

O talento exibido no Queen’s Park não foi desperdiçado pela seleção escocesa, que utilizava o próprio clube como sua base. Watson acabou recebendo três convocações para seleção escocesa de futebol, no auge dos primeiros jogos de futebol internacionais.

A estréia foi no dia 12 de março de 1881 em um jogo histórico onde os escoceses venceram a Inglaterra por 6 a 1. Pouco tempo depois, fez mais dois jogos: Um contra o Pais de Gales e o último novamente contra a Inglaterra, todos com vitória dos escoceses.

Seu comportamento dentro e fora do campo eram algo digno de elogios e isso foi fundamental para sua transferência para o futebol inglês em 1882,onde foi pioneiro a disputar a Copa da Inglaterra, a competição mais antiga da história.   

Nas primeiras duas temporadas, Watson defendeu o Swifts Football Club, onde tornou-se o primeiro negro a jogar no campeonato inglês. Não conseguiu nenhum título, porém com seu prestígio ainda em alta foi jogar uma temporada pelo Corinthian F.C. que havia sido fundado alguns anos antes, e se tornara uma potência do amadorismo mesmo com o profissionalismo nascente.

Depois dessas passagens, voltou ao futebol escocês onde jogou dois anos no time que o levou a seleção, o Queen’s Park. Já em 1887 e casado pela segunda vez, Watson resolveu voltar a Inglaterra e jogou em seu último clube, o Bootle F.C.

O fim precoce da passagem de Watson pela seleção não foi por falta de interesse dos escoceses. O problema é que o defensor se mudou para Londres em 1882 e, na época, a equipe se limitava a convocar jogadores que atuassem no país.

Watson esteve em campo, inclusive, na emblemática vitória por 8 X 1 sobre o Blackburn, então campeão da Copa da Inglaterra e já profissionalizado.

Engenheiro formado e milionário, Andrew Watson preferiu manter-se no amadorismo. Voltou ao Queen’s Park, no qual também acumulou funções administrativas. E terminou a carreira no Bootle, os primeiros rivais do Everton.

Alguns associam o nome de Arthur Wharton como o primeiro jogador negro da história, ganês que era goleiro do Roterham Town, equipe da recém-criada segunda divisão do Campeonato Inglês.

Entretanto registros constataram que ele começou no futebol em 1885, já Watson deu inicio a sua em 1974, mais de uma década antes.

Arthur Wharton nasceu em 28 de outubro de 1865, em Jamestown/Usshertown, Accra e faleceu no dia 13 de dezembro de 1930, em Edlington, Reino Unido.

Já Watson encerrou a carreira em 1892, tendo se mudado para o Rio de Janeiro, logo após sua aposentadoria, onde trabalhou por alguns anos em navios e fez alguns testes para se qualificar como um engenheiro. Ele passou os últimos 20 anos de sua vida trabalhando como engenheiro naval em Liverpool.

Watson morreu em Londres, vítima de pneumonia em 8 de março de 1921. Seu corpo está enterrado do Cemitério de Richmond. Certamente, suas origens nobres ajudaram a ter as portas abertas, em uma época na qual o futebol era marcado pela divisão social. Mas não tanto pelo preconceito racial.

Não existem registros de jornal que relatem qualquer discriminação pela cor da pele do defensor – mas, curiosamente, apontam um estranhamento pelas chuteiras “coloridas” que usava, marrons, em uma época em que os calçados pretos eram dominantes.

Durante a década de 1920, Watson foi eleito para a melhor seleção escocesa da história. Um reconhecimento e tanto, mostrando também como superou qualquer barreira que se impusesse.

Pioneiro que não gerou uma miscigenação imediata, mas que poderia ser colocado ao lado de outros grandes, como Leônidas da Silva, Leandro Andrade, Larbi Benbarek.

Todos negros, que marcaram o futebol. E que são ignorados por um bando de imbecis que se acham no direito de usar o esporte para segregar e inferiorizar.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A morte de Tadeu Bauru

Morreu no sábado, 31, em Montenegro, sua cidade natal, o ex-jogador de futebol Luiz Tadeu Santos, mais conhecido por “Tadeu Bauru”, aos 64 anos de idade. Ele lutava contra uma doença degenerativa.

Tadeu começou sua carreira pela equipe do Gaúcho, de Passo Fundo, em 1970. Com a idade de 16 anos ele foi para as categorias de base do Internacional, de Porto Alegre.

Como profissional, integrou o time colorado nos anos 1970, tendo integrado o grupo de jogadores campeões brasileiros de 1975 e 1976 e do octacampeonato gaúcho, tendo jogado ao lado de craques como Falcão, Batista, Caçapava, Valdomiro e Manga.

Nos anos de 1976 e 1977 jogou no Operário, de Campo Grande (MS), que era treinado pelo ex-goleiro do Fluminense, do Rio de Janeiro, Carlos Castilho e tinha como grande destaque o goleiroManga.

Foi uma época em que os mato-grossenses tiveram destacada atuação no Campeonato Brasileiro, derrotaram equipes tradicionais como Coritiba, Fluminense, Santa Cruz , Remo e Palmeiras, chegando à semifinal, contra o São Paulo, e conquistando o terceiro lugar na competição.

No primeiro jogo, o Operário perdeu por 3 X 0 no Morumbi. Na segunda partida, no Morenão, em Campo Grande,  o Operário ganhou por 1 X 0, gol de Tadeu Bauru.

O presidente do Operário Futebol Clube, Estevão Petrallas, lamentou a morte do ídolo do clube. Segundo Petrallas, Tadeu faz parte da história do Operário, pois fez parte de uma geração que marcou o futebol local.

Depois, o jogador passou por outras equipes como Bahia, Cascavel, Caxias, São Paulo, de Rio Grande, Estrela e São José, sendo os quatro últimos do Rio Grande do Sul.

Tadeu já estava aposentado dos gramados, mas ainda chegou a trabalhar na formação de jogadores em Porto Alegre, antes de radicar-se em Montenegro, cidade a 55 quilômetros da Capital.

Em maio deste ano, ele recebeu da Câmara de Vereadores a “Honra ao Mérito Legislativo”, durante sessão solene que integrou a programação comemorativa do aniversário de 144 anos do município.

Em 2015 o ex-atleta também foi homenageado pelo Consulado do Internacional em Montenegro e a Associação dos Colorados de Montenegro (ASCOM), que colocou uma placa em seu estádio denominando-o de Luiz Tadeu Santos.

Depois foi realizado um jogo entre atletas veteranos da região, seguido de um almoço, quando foi apresentado um vídeo com depoimento de familiares e amigos do ex-atacante colorado.

O Internacional esteve representado no evento através de seu diretor de Relacionamento Social, Álvaro Bueno e do conselheiro Remy Suzin.

E, abrilhantando o almoço, estava presente o ex-companheiro de Tadeu no Inter, o saudoso Caçapava, que foi lá para abraçar e saudar o ex-companheiro. Outro ex-atleta que participou da homenagem foi Bibiano Pontes.

Além do cônsul colorado em Montenegro, José Airton Kerber, também participaram da cerimônia o prefeito municipal, Luiz Américo Aldana e o presidente da ASCOM, Valdoir Ramos Oliveira.

O corpo de Tadeu foi velado na Capela São João, e o enterro aconteceu no Cemitério Municipal do município de Montenegro. (Pesquisa: Nilo Dias)


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um futebolista palestino preso em Israel

Não é fácil morar na Palestina. O espaço geográfico que, até 1948, pertencia completamente à ela, está hoje repartido em três regiões. Uma corresponde a Israel e as outras, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, são habitadas em grande parte por árabes de origem palestina, e compreendem o almejado Estado da Palestina. Mas continua ocupado por israelenses, na ausência de um tratado de paz definitivo.

O povo palestino se encontra atualmente disseminado em países árabes ou em territórios reservados aos refugiados. É difícil para todos, inclusive para quem se atreve a jogar futebol por lá.

A história de Mahmoud Sarsak é um exemplo das perseguições que esse povo sobre por parte dos israelitas. Sarsak foi preso em 22 de julho de 2009 no “Erez Crossing” (um cruzamento de fronteira na barreira de Israel-Gaza), quando viajava entre sua casa em Gaza e a Cisjordânia para se unir ao seu novo clube, o Balata Youth, uma equipe de futebol palestina fundada em 1954 e com sede no campo de refugiados de Balata, em Nablus.

Ele foi detido sob a suspeita de ser um combatente ilegal ligado ao Movimento da Jihad Islâmica, um grupo militante palestino, considerado terrorista pelos governos dos Estados Unidos, União Europeia, Japão, Austrália e Israel.

O mais estranho em tudo isso é que a Lei do Combatente Ilegal é uma lei israelense que só se aplica a não palestinos. Por exemplo, libaneses pegos dentro de Israel ou na fronteira podem ser chamados disso.

O serviço de segurança geral “Shin Bet”, uma das três principais organizações da comunidade de inteligência israelense, ao lado de Aman (inteligência militar) e do Mossad (serviço de inteligência estrangeiro) alegou que Sarsak havia plantado uma bomba que feriu um soldado israelense.

A agência disse que não tinha provas suficientes para um julgamento, mas mesmo assim ele foi mantido preso por três anos sem acusações formais. Em 2013 Sarsak disse que foi submetido a tortura física e mental durante o período em que esteve preso.

Os palestinos suspeitavam que Sarsak foi preso porque os israelenses tinham medo que ele - o jogador mais jovem a fazer parte da Liga Palestina, com apenas 14 anos - em breve estaria fazendo gols para algum time grande do mundo e tirando a camisa na comemoração para mostrar mensagens pró-Palestina, em vez de piadas medíocres e mensagens dos patrocinadores.

Além de Sarsak havia outros palestinos presos, até muitos doutores com PhD e jogadores profissionais de futebol. O lugar estava cheio de palestinos talentosos, o que reforçou a ideia de que se tratava de uma política de Israel para evitar que esses palestinos brilhassem e mostrassem seu lado civilizado para o mundo.

Os primeiros 45 dias preso foram os mais difíceis, já que foi torturado física, mental e verbalmente. Eles o transferiram para uma cela com outros prisioneiros por oito meses. Depois disso, foi chamado de volta por outros 12 dias e torturado e interrogado. Isso aconteceu três ou quatro vezes durante o período em que esteve recluso.

Sarsak começou uma greve de fome em 19 de março de 2012, depois que sua detenção administrativa foi renovada pela sexta vez.  Essa decisão foi uma resposta à morte de Zakaria Issa, um jogador de futebol internacional palestino que morreu pouco depois de ser libertado.

Zakariya Issa estava numa das celas e tinha câncer, mas eles nunca o ajudaram. Ele morreu naquela cela. Isso mexeu com Sarsak, que começou a pensar: “Preciso me ajudar porque ninguém mais vai”. Por exemplo, a FIFA não o estava ajudando naquela época.

Foi assim que decidiu pela greve de fome, que o fez perder metade de seu peso normal e ter os músculos prejudicados. Durante a greve de fome chegou perto da morte.

Ele insistiu em ser considerado como prisioneiro de guerra, porque foi detido sob a Lei de Combate de Ilícitos de Israel. E chegou a recusar uma proposta para sair do país exilado para a Noruega por três meses.  

O mundo passou a se interessar pelo caso. Em 5 de junho de 2012 foi organizado em Londres uma série de protestos visando chamar a atenção para a causa de Sarsak.

Em 8 de junho, a FIFPro (em português Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol), que representa futebolistas profissionais de todo o mundo, pediu a sua libertação imediata.

Juntaram-se a esse pedido Eric Cantona, ex-jogador francês, Frédéric Kanouté, futebolista do ano na África, o então presidente da UEFA, Michel Platini e o então presidente da FIFA, Sepp Blatter.

Sarsak também recebeu apoio dos futebolistas Abou Diaby, francês de origem marfinense e Lilian Thuram, ex-atleta também francês. E fora do futebol, do diretor de cinema britânico Ken Loach e do professor norte-americano Noam Chomsky, também solicitaram sua liberação.

Em 14 de junho, a “Amnistia Internacional” pediu que Sarsak fosse admitido no hospital ou libertado, sob a alegação que lhe tinha sido negado o acesso adequado a um tratamento médico.

No dia 14 de junho de 2012, Sarsak retomou o consumo de leite depois de se encontrar com autoridades israelenses. Em 18 daquele mês, o advogado dele disse ter aceito um acordo para acabar com a greve de fome em troca da liberdade.

Em 10 de julho de 2012, Israel liberou Sarsak da prisão. À sua chegada a Gaza, foi saudada com uma cerimônia de boas-vindas, na qual dezenas de membros da Jihad Islâmica Palestina (PIJ), presentes na cerimônia, derrubaram rifles no ar. Nafez Azzam, um dos líderes do grupo, descreveu Sarsak como "um dos nossos membros nobres".

As mulheres também acenavam as bandeiras pretas da PIJ nas casas próximas. As ruas foram decoradas com enormes fotos de Sarsak, que depois de sair de seu carro foi carregado nos ombros e beijou e abraçou amigos e familiares.

Na ocasião afirmou: "Esta é uma vitória para os prisioneiros e agradeço a todos os órgãos palestinos, árabes e internacionais e pessoas que me defenderam".

Quando saiu, se sentiu como se tivesse nascido de novo. Ficou muito feliz em ter liberdade e ver a família outra vez. Ao mesmo tempo ficou triste por deixar seus irmãos sofrendo na prisão.

Três anos de sua vida foram tirados. Ficou na prisão dos 21 aos 24 anos — alguns dos melhores anos na vida de um jogador de futebol. Foi prejudicado em termos de saúde e psicologicamente. Depois que saiu, demorou oito meses para ser fisicamente capaz de tentar jogar bola novamente.

Contou que o lobby sionista sempre tenta retratar Israel como um país civilizado, que age de acordo com as leis de direitos humanos, que são amantes da paz e tudo mais.

Israel chegou a pedir a alguns países europeus para que não deixassem Sardak entrar, dizendo que se tratava de um “terrorista”. E que eles tentam desacreditar e silenciar qualquer palestino que surja na mídia ocidental.

Desde a sua libertação, Sarsak procurou aumentar a conscientização sobre a perseguição dos jogadores de futebol palestinos pelo governo israelense e se opôs à participação do seu país no Campeonato Sub-21, realizado em Israel.

Ele contou que os israelenses usavam técnicas de tortura diferentes para pessoas diferentes. Eles costumavam lhe interrogar por vários dias e não o deixavam dormir. Uma sessão chegou a durar 14 horas contínuas. 

Certa ocasião eles amarraram Sarsak numa cadeira por algumas horas com música alta para que não conseguisse dormir. E depois as perguntas recomeçavam. Eles queriam que o futebolista admitisse algo que não tinha feito, para justificar a coisa toda, nacional e internacionalmente.

Em outra oportunidade ele foi amarrado numa cadeira e o lugar transformado em geladeira. A sala ficou numa temperatura de -12º ou -15ºC por cerca de meia hora. Quando Sarsak já estava quase desmaiando, eles o levaram ao hospital para ser reanimado. E começava o interrogatório de novo.

Quando criança Sarsak tinha como seus ídolos no futebol Alessandro Del Piero, Frank Lampard e Zinedine Zidane. Depois de se tornar jogador, ele atuou regularmente pelo time de futebol olímpico palestino e duas vezes na seleção nacional principal, concorrendo contra a China e o Iraque.

Sarsak cresceu num campo de refugiados na Faixa de Gaza. Havia um clube de futebol lá, onde treinava frequentemente. E acabou entrando no time jovem nacional da Palestina, depois no time nacional palestino e no time olímpico. Jogava de centroavante ou ala direita.

Existem duas estruturas de ligas por lá, uma na Cisjordânia e outra na Faixa de Gaza por causa da separação geográfica. A da Cisjordânia é um pouco mais organizada e mais regular, já que há mais estabilidade por lá.

Em Gaza, se consegue fazer um campeonato a cada quatro anos, pois são sempre interrompidos por ataques, incursões, bombardeios e tudo mais.

Em 2009 e em 2012, Israel destruiu os estádios de futebol da Palestina. A suspeita é de que eles queriam impedir os palestinos de mostrar uma face mais positiva e de se integrar com a comunidade internacional.

Os recursos são escassos e, obviamente, se torna um tanto perigoso reunir uma grande multidão, principalmente em Gaza. Mas os palestinos são torcedores devotados, vão aos jogos não importando o que aconteça.

Em Gaza, há um clube grande em Rafah, no campo de refugiados de al-Shati, e outro em Shejaia. E os palestinos são loucos pela Liga Espanhola. Metade das pessoas torce pelo Barcelona e metade para o Real Madrid. (Pesquisa: Nilo Dias)